Por que os sindicatos são hostis ao socialismo?

Por David North
15 Junho 2019

A seguinte palestra foi realizada em 10 de janeiro de 1998 durante a Escola Internacional de Verão sobre Marxismo e os Problemas Fundamentais do Século XX, organizada pelo Partido Socialista pela Igualdade (Austrália), em Sidney, entre 3 e 10 de janeiro de 1998.

Duas questões persistentes

Na história do movimento marxista, existem duas pendências políticas, ou “questões”, que têm sido a fonte de controvérsia excepcionalmente persistente, abrangendo mais de um século. Uma é a “questão nacional” e a outra é a questão “sindical”.

Qual é a razão para a persistência dessas questões e qual é a relação, se alguma, entre as duas? Sugiro que a resposta a essa questão seja encontrada em um estudo das condições históricas em que o movimento operário moderno emergiu. À medida que o Estado-Nação burguês surgia das lutas revolucionárias democráticas dos séculos XVIII e XIX, ele fornecia o impulso econômico e a estrutura política para o desenvolvimento da classe trabalhadora europeia e estadunidense. O processo de consolidação nacional foi, embora em muitas formas diferentes e em diferentes graus, ligado a questões democráticas gerais de grande importância para a classe trabalhadora.

A atitude da classe trabalhadora em relação à nação não poderia ser senão de caráter altamente complexo, contraditório e ambivalente. Por um lado, o crescimento da classe trabalhadora em número e força e a melhoria de seu padrão de vida estavam geralmente ligados à consolidação do Estado nacional e à expansão de seu poder econômico-industrial. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento das lutas econômicas e sociais da classe trabalhadora a colocava em posição de hostilidade ao Estado nacional, que, em última instância, servia aos interesses de classe da burguesia.

A persistência da questão nacional dentro do movimento marxista surgiu precisamente da complexidade da relação entre os trabalhadores e o Estado-Nação burguês. Em nenhum lugar do mundo as massas passaram sem dor e de maneira orgânica da consciência nacional à consciência socialista internacional. Na vida de um ser humano, as experiências de sua juventude continuam influenciando poderosamente o resto de sua vida. Um fenômeno análogo acontece na evolução histórica da consciência social das classes. A aliança histórica da classe trabalhadora com o nacionalismo deve ser explicada pelas circunstâncias de suas origens e pelas lutas de seus estágios formativos. A consciência social permanece defasada – ou, para colocar de maneira mais precisa, não reflete direta e imediatamente na forma científica altamente complexa e contraditória – em relação ao ser social. Da mesma maneira, a influência do nacionalismo sobre o movimento dos trabalhadores não diminui à medida que aumenta a preponderância da economia mundial sobre o estado nacional e o caráter cada vez mais internacional da luta de classes.

A persistência da opressão nacional no século XX – embora sua causa essencial seja de caráter socioeconômico – consolidou as formas de consciência nacional. Mas, apesar do poder das influências nacionais, é responsabilidade dos marxistas basear seu programa não no apelo a antigos preconceitos e concepções obsoletas, mas em uma análise científica da realidade social. Uma das características mais comuns do oportunismo é a adaptação de seu programa político a preconceitos dominantes, em busca de vantagens táticas de curto prazo. Ele age a partir de avaliações práticas e conjunturais, e não de considerações de caráter histórico, científico e de princípios.

Negando as consequências políticas e econômicas da globalização da produção sobre o Estado nacional, os oportunistas geralmente atribuem a essa forma política historicamente ultrapassada um potencial progressista ao qual ela carece totalmente. Assim, eles insistem em glorificar a exigência de autodeterminação nacional, apesar do fato dela ter se tornado a palavra de ordem de todo o movimento chauvinista reacionário do mundo.

Os marxistas não consideram o estado-nação irrelevante. Embora a forma do estado-nação constitua, do ponto de vista do desenvolvimento global e da integração das forças produtivas, uma barreira ao progresso humano, ela continua sendo um poderoso fator na política mundial. O movimento socialista não ignora essa realidade política na elaboração de suas táticas. Na medida em que o estado-nação persiste como uma unidade básica de organização política e econômica da sociedade burguesa, a questão nacional – que, nesse ponto da história, seria mais apropriadamente chamada de “problema nacional” – persiste. Mas as táticas marxistas são consequência de uma compreensão científica da obsolescência histórica do estado nacional. Através de suas táticas, o movimento trotskista se empenha em implementar a estratégia orientadora da Quarta Internacional como o Partido Mundial da Revolução Socialista. É essa insistência na supremacia da estratégia internacional que distingue o Comitê Internacional da Quarta Internacional de todo grupo nacional-reformista e oportunista.

Essas considerações de princípio não são colocadas com menos urgência em relação à questão sindical, que diz respeito ao papel dessa forma muito antiga de organização proletária no desenvolvimento das lutas revolucionárias da classe trabalhadora pelo socialismo. O surgimento do proletariado moderno ocorreu dentro do contexto do desenvolvimento histórico do Estado-nação. Suas organizações e atividades tomaram forma dentro da estrutura do estado nacional. Esse foi especialmente o caso em relação aos sindicatos, cujos avanços e prosperidade foram, em grande medida, dependentes dos sucessos industriais e comerciais de “seus” Estados nacionais. Assim como existem razões históricas para a atitude ambivalente da classe trabalhadora em relação ao estado nacional, há também razões objetivas profundamente enraizadas para a ambivalência, até a hostilidade, dos sindicatos em relação ao socialismo. Esse é um problema sobre o qual o movimento socialista derramou muitas lágrimas por mais de um século.

É claro que a gravidade dos problemas que assombrariam as relações entre os partidos marxistas revolucionários e os sindicatos não poderia ter sido totalmente antecipada nos primeiros anos de suas existências. A postura adotada pelos marxistas em relação aos sindicatos refletiu, inevitavelmente, as condições e circunstâncias da época. A questão sindical não é colocada em 1998 como era em 1847. Houve uma quantidade considerável de história nos últimos 151 anos, e o movimento socialista teve ampla oportunidade de se familiarizar com o sindicalismo. Aprendeu muito sobre a natureza dos sindicatos, embora nenhum vestígio desse conhecimento acumulado possa ser encontrado nas páginas da imprensa radical de “esquerda”.

Durante grande parte de sua história, o movimento socialista buscou ardentemente os sindicatos. No entanto, apesar de muitos cortejos e galanteios, esse romance foi em grande parte malsucedido. Apesar de inúmeras expressões de afeto e preocupação, os pretendentes socialistas foram repetidamente chutados nos dentes e até mesmo apunhalados pelas costas pelos objetos de seu desejo. Mesmo quando os socialistas tentaram criar sindicatos próprios e fornecer-lhes uma educação marxista impecável, seus descendentes os recompensaram com a pior ingratidão possível. Tão logo a oportunidade se apresentava, eles tendiam a desprezar os elevados ideais de seus velhos sábios socialistas e a encontrar prazer na carne do capitalismo.

Os socialistas devem se submeter à autoridade dos sindicatos?

Seria de se pensar que há algo a ser aprendido com tantas experiências malfadadas. Mas, assim como os velhos tolos encontrados nos contos de Boccaccio, os radicais antiquados e desdentados de hoje estão ansiosos para fazer o papel de maridos traídos mais uma vez. Assim, as atuais organizações de “esquerda” ainda insistem que o movimento socialista tem o dever de sujeitar-se lealmente às necessidades e caprichos dos sindicatos. Os socialistas, insistem, devem reconhecer os sindicatos como a organização dos trabalhadores por excelência, a forma mais representativa dos interesses sociais da classe trabalhadora. Os sindicatos, eles argumentam, constituem a liderança autêntica e incontestável da classe trabalhadora – os árbitros principais e definitivos de seu destino histórico. Desafiar a autoridade dos sindicatos sobre a classe trabalhadora, questionar de qualquer maneira o direito supostamente “natural” dos sindicatos de falar em nome da classe trabalhadora, equivale a um sacrilégio político. É impossível, segundo os radicais, conceber qualquer movimento operário genuíno que não seja dominado, se não formalmente liderado, pelos sindicatos. Somente com base nos sindicatos é que a luta de classes pode ser efetivamente travada. E, finalmente, qualquer esperança que possa existir para o desenvolvimento de um movimento socialista de massas depende de “ganhar” os sindicatos, ou, ao menos, setores importantes deles, para uma perspectiva socialista.

Para colocar a questão sem rodeios, o Comitê Internacional rejeita cada uma dessas afirmações, que são refutadas tanto pela análise teórica quanto pela experiência histórica. Aos olhos dos nossos opositores políticos, a nossa recusa em nos curvarmos perante a autoridade dos sindicatos é equivalente à lesa-majestade. Isso não nos incomoda muito, pois não apenas nos acostumamos, ao longo das décadas, a nos opor à opinião pública de “esquerda” – ou, mais precisamente – pequeno-burguesa; consideramos sua amarga antipatia o sinal mais seguro de que o Comitê Internacional está, politicamente falando, no caminho correto.

A posição dos radicais repousa sobre uma premissa crucial: em virtude de seu enorme número de membros, os sindicatos são “organizações operárias”. Assim, quem desafia a autoridade dos sindicatos está, por definição, colocando-se em oposição à classe trabalhadora. O problema com essa premissa é que ela reduz os sindicatos à abstrações vazias e a-históricas. Que os sindicatos têm um grande número de membros da classe trabalhadora é, sem dúvida, verdade. Mas o mesmo acontece com muitas outras organizações, como, nos Estados Unidos, a ordem dos Elks, os maçons, os Veteranos de Guerras Estrangeiras e a Igreja Católica.

Além disso, uma referência à grande participação da classe trabalhadora nos sindicatos não é um substituto adequado para uma análise mais cuidadosa da composição social dessas organizações, especialmente suas lideranças – isto é, suas burocracias dirigentes. O fato de a classe trabalhadora participar em massa dos sindicatos não significa que essas organizações ajam em seu interesse. De fato, somos obrigados a examinar se existe, dentro dos sindicatos, um conflito objetivo entre os interesses da massa de seus membros e aqueles da burocracia dirigente, e em que medida as políticas dos sindicatos refletem os interesses não dos trabalhadores, mas da burocracia.

Mesmo admitindo que os sindicatos são “organizações de trabalhadores”, muito pouco é acrescentado à soma total do conhecimento político pelo uso dessa definição. Afinal, poderíamos continuar a jogar o jogo das definições simplesmente perguntando: “E precisamente o que se entende por organização de trabalhadores?” Dificilmente seria suficiente responder: “Uma organização de trabalhadores!” Ao procurar entender a natureza dos sindicatos, a questão real é: “Qual é a relação entre essas organizações com a luta de classes em geral e com a libertação dos trabalhadores da exploração capitalista em particular?”

Neste ponto, devemos ir além da terminologia vazia e em direção à construção de uma definição mais profunda, baseada em uma análise histórica cuidadosa do papel desempenhado pelos sindicatos nas lutas da classe trabalhadora e do movimento socialista. O propósito de tal análise não é meramente produzir exemplos de crimes ou realizações, dependendo do que se está procurando. Ao invés disso, é descobrir a essência desse fenômeno social, isto é, as leis subjacentes das quais as ações e políticas dos sindicatos são a expressão operativa e prática.

Por que os sindicatos traem a classe trabalhadora?

Nossos adversários radicais nem sequer tentam realizar tal análise e, portanto, não podem sequer oferecer uma resposta séria à pergunta mais elementar e óbvia: “Por que os sindicatos fracassaram tão miseravelmente em defender os padrões de vida da classe trabalhadora, quanto mais aumentá-los?” Não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, os últimos vinte e cinco anos testemunharam um declínio abrupto na posição social da classe trabalhadora. Os sindicatos foram incapazes de defender a classe trabalhadora contra a investida do capital. Na medida em que esse fracasso foi demonstrado ao longo de várias décadas em escala internacional, somos inevitavelmente levados a buscar suas causas subjacentes – tanto no ambiente socioeconômico em meio ao qual os sindicatos agora existem, quanto de maneira mais fundamental na natureza dos próprios sindicatos. Em outras palavras, assumindo que o ambiente se tornou repentinamente hostil depois de 1973, qual era a característica dos sindicatos que os tornava tão vulneráveis a essa mudança e tão incapazes de adaptarem-se às novas condições?

Vamos considerar a resposta da Liga Espartaquista a esse problema. Em uma denúncia furiosa do Partido Socialista pela Igualdade – abrangendo quatro edições de seu jornal e milhares de palavras, das quais uma porcentagem extraordinariamente grande são adjetivos e advérbios insultantes – os espartaquistas negam veementemente que existam quaisquer razões de caráter objetivo para o fracasso dos sindicatos. Pelo contrário, tudo deve ser explicado pelas “políticas derrotistas e traidoras dos enganadores da AFL-CIO”. Uma explicação mais banal dificilmente poderia ser imaginada. Um paleontólogo poderia da mesma forma declarar que os dinossauros foram extintos porque não queriam mais viver! Os espartaquistas não conseguem explicar por que os dinossauros na liderança da AFL-CIO decidiram seguir políticas derrotistas e traidoras. Foi simplesmente porque eram pessoas más? E se eles eram pessoas más, por que tantas delas podem ser encontradas na liderança dos sindicatos, não apenas nos EUA, mas em todo o mundo? Existe alguma coisa na natureza dos sindicatos que os leva a atrair tantas pessoas más, que então adotam “políticas derrotistas e traidoras”? Também poderíamos fazer outra pergunta: “O que acontece com a Liga Espartaquista que a induz a apoiar, tão entusiasticamente, organizações que atraem um grande número de pessoas más que se dedicam a trair e derrotar os trabalhadores que supostamente representam?”

O problema com uma abordagem subjetiva não é apenas o fato de evitar lidar com todos os problemas realmente difíceis; ela permite à Liga Espartaquista e aos outros grupos radicais, apesar de seu ataque verbal aos “enganadores”, manter aberta a possibilidade de sua eventual redenção e, com base nisso, endossar a contínua subordinação da classe trabalhadora aos sindicatos e, em última instância, aos mesmos enganadores.

Essa perspectiva é revelada em um artigo escrito por Peter Taaffe, o principal líder do Partido Socialista Britânico (British Socialist Party), anteriormente conhecido como a Tendência Militante (Militant Tendency). [1] As tentativas do Sr.Taaffe de ornar sua subserviência à burocracia trabalhista com uma fraseologia radical produzem um efeito que é mais cômico do que convincente. Ele começa oferecendo uma pequena lista de países nos quais os burocratas sindicais estão envolvidos em traições particularmente flagrantes à classe trabalhadora. Tal como o chefe de polícia Louis, em Casablanca, Taaffe está profundamente chocado com a corrupção que ele observa por toda parte, ao mesmo tempo que os pagamentos políticos da burocracia vão parar no seu bolso. O papel dos sindicalistas suecos, Taaffe nos diz, tem sido “escandaloso”. O comportamento dos burocratas belgas é “descarado e aberto”. Os líderes irlandeses também estão envolvidos em um “espetáculo escandaloso” de traição. Na Grã-Bretanha, Taaffe afirma que os trabalhadores “pagaram um alto preço pela impotência dos líderes de direita”. Ele também observa com tristeza a capitulação dos líderes sindicais no Brasil, na Grécia e nos Estados Unidos.

Mas, no que diz respeito a Taaffe, o problema dos sindicatos são apenas os líderes inadequados que sofrem de uma ideologia falsa: a aceitação do mercado capitalista. As organizações em si são basicamente saudáveis. Com base nessa avaliação subjetiva, Taaffe critica “pequenos grupos de esquerda” – uma referência às seções do Comitê Internacional – que, baseando-se em Trotsky, insistem que as traições dos sindicatos são a expressão de uma tendência fundamental do seu desenvolvimento. Essa abordagem “unilateral”, de acordo com Taaffe, não consegue reconhecer a possibilidade de que líderes sindicais de direita, “sob pressão da base, uma classe trabalhadora agitada e combativa”, possam ser forçados a se separar do Estado e liderar um movimento de oposição da classe trabalhadora.” [2]

Portanto, escreve Taaffe, a “tendência principal no próximo período”, na Grã-Bretanha e em outros lugares, será a dos trabalhadores “obrigando os sindicatos a lutar em seu favor”. O destino da classe trabalhadora depende da “regeneração dos sindicatos”. [3]

Um argumento semelhante é apresentado por uma fração do agora extinto Partido Revolucionário dos Trabalhadores (Workers Revolutionary Party). O que deve ser evitado a todo custo, insistem, é qualquer luta para desenvolver novas formas de organização da classe trabalhadora em oposição à dominação dos sindicatos. “Qualquer política espontaneísta simplista direcionada às bases que parta da proposição abstrata de que os líderes sindicais estão envolvidos em esquemas com o Estado e que as organizações alternativas devem ser construídas e conectadas será completamente inadequada para compreender a nova situação.” [4]

Não tenho nenhuma informação especial relacionada aos encontros noturnos de autoridades sindicais na Grã-Bretanha ou em qualquer outro lugar, mas seu oportunismo é tudo menos uma “proposição abstrata”. Pelo contrário, os serviços traiçoeiros dos dirigentes sindicais são procurados diariamente pelos empregadores e pelo estado, e esses solicitantes são muito raramente desapontados.

As perspectivas de uma eventual redenção dos sindicatos parecem muito menos prováveis quando se percebe que as características e qualidades das burocracias dirigentes são manifestações subjetivas de propriedades e processos sociais objetivos. As denúncias dos líderes sindicais são permissíveis e até necessárias, mas apenas na medida em que não sirvam de substituto para uma análise da natureza do sindicalismo.

Portanto, nosso objetivo é iniciar uma análise do sindicalismo, com base em uma revisão histórica dos estágios críticos no desenvolvimento dessa forma específica do movimento operário. O movimento socialista acumulou, ao longo de um período não inferior a 150 anos, uma experiência histórica imensa. Essa experiência justifica sua alegação de ser o maior e mais triste especialista do mundo quando se trata do tema do sindicalismo.

Nós não afirmamos que o sindicalismo representa algum tipo de erro histórico que nunca deveria ter ocorrido. Seria ridículo negar que um fenômeno tão universal quanto o sindicalismo carecia de raízes profundas na estrutura socioeconômica da sociedade capitalista. Há, com certeza, um elo claro entre o sindicalismo e a luta de classes; mas apenas no sentido de que o impulso da organização dos trabalhadores dentro dos sindicatos tem sua origem no claro conflito entre os interesses materiais dos empregadores e dos trabalhadores. De nenhum modo decorre desse fato objetivo que os sindicatos, como uma forma específica de organização socialmente determinada, se identifiquem com, ou procurem levar adiante, a luta de classes (à qual, em um sentido histórico, eles devem sua existência). Ao invés disso, a história oferece evidências abundantes de que eles são muito mais dedicados à supressão da luta de classes.

A tendência dos sindicatos de suprimir a luta de classes encontrou sua expressão mais intensa e desenvolvida em sua postura em relação ao movimento socialista. Não houve ilusão mais trágica, especialmente para os socialistas, do que aquela que imaginava os sindicatos como aliados confiáveis, quanto mais inevitáveis, na luta contra o capitalismo. O desenvolvimento orgânico do sindicalismo prossegue não na direção do socialismo, mas em oposição a ele. Não obstante as circunstâncias de suas origens – isto é, mesmo quando os sindicatos em um ou outro país deviam sua existência diretamente ao impulso e à liderança proporcionados pelos socialistas revolucionários – o desenvolvimento e a consolidação dos sindicatos levaram invariavelmente a um ressentimento da tutela socialista e a esforços determinados para se libertar dela. Apenas através de uma explicação dessa tendência é possível chegar a um entendimento científico do sindicalismo.

Os sindicatos como forma social

Deve-se ter em mente que quando nos propomos a estudar o sindicalismo, estamos lidando com uma forma social definida. Com isso, queremos dizer não uma espécie de coleção casual, acidental e amorfa de indivíduos, mas uma conexão historicamente evoluída entre pessoas organizadas em classes e enraizadas em certas relações específicas de produção. Também é importante refletir sobre a natureza da própria forma social dos sindicatos. Todos nós sabemos que existe uma relação entre forma e conteúdo, mas essa relação é geralmente concebida como se a forma fosse apenas a expressão do conteúdo. Deste ponto de vista, a forma social pode ser concebida meramente como uma expressão exterior, plástica e infinitamente maleável das relações nas quais se baseia. Mas as formas sociais podem ser mais profundamente compreendidas como elementos dinâmicos no processo histórico. Dizer que “conteúdo é formado” significa que a forma confere ao conteúdo do qual é a expressão qualidades e características definidas. É através da forma que o conteúdo existe e se desenvolve.

Talvez seja possível esclarecer o propósito desse desvio no âmbito das categorias e abstrações filosóficas com uma referência à famosa seção no primeiro capítulo do primeiro volume de OCapital, em que Marx pergunta: “De onde, então, surge o caráter enigmático do produto do trabalho, tão logo ele assume a forma de mercadorias? Claramente, a partir dessa própria forma.” [5] Ou seja, quando um produto do trabalho assume a forma de uma mercadoria – uma transformação que ocorre apenas em certo estágio da sociedade – ela adquire uma qualidade peculiar e fetichista que não possuía anteriormente. Uma vez que os produtos são trocados no mercado, as relações sociais reais entre as pessoas, das quais mercadorias são o resultado, assumem necessariamente a aparência de uma relação entre as coisas. Um produto do trabalho é um produto do trabalho; e, no entanto, ao assumir, no quadro de novas relações produtivas, a forma de uma mercadoria, adquire novas propriedades sociais.

Da mesma forma, um grupo de trabalhadores é um grupo de trabalhadores. E, ainda assim, quando esse grupo assume a forma de um sindicato, adquire, através dessa forma, propriedades sociais novas e bastante distintas às quais os trabalhadores são inevitavelmente subordinados. O que, precisamente, significa isso? Os sindicatos representam a classe trabalhadora em um papel socioeconômico muito distinto: como o vendedor de uma mercadoria, a força de trabalho. Surgindo com base nas relações produtivas e nas formas de propriedade do capitalismo, os sindicatos buscam garantir para essa mercadoria o melhor preço que pode ser obtido nas condições de mercado vigentes.

É claro que existem enormes diferenças entre o que descrevi em termos teóricos como o “propósito essencial” dos sindicatos e suas atividades na vida real. A realidade prática – a liquidação cotidiana dos interesses mais imediatos da classe trabalhadora – corresponde muito pouco à “norma” teoricamente concebida. Essa divergência não contradiz a concepção teórica, mas é em si mesma o resultado da função socioeconômica do sindicato. Sustentando-se sobre a base das relações de produção capitalistas, os sindicatos são, por sua própria natureza, obrigados a adotar uma atitude hostil em relação à luta de classes. Dirigindo seus esforços para obter acordos com empregadores que fixam o preço da força de trabalho e determinam as condições gerais em que a mais-valia será extraída dos trabalhadores, os sindicatos são obrigados a garantir que seus membros supram sua força de trabalho de acordo com os termos dos contratos negociados. Como Gramsci observou, “o sindicato representa a legalidade e deve ter como objetivo fazer com que seus membros respeitem essa legalidade”.

A defesa da legalidade significa a supressão da luta de classes. É por isso que os sindicatos, em última instância, minam sua capacidade de alcançar até mesmo os objetivos limitados aos quais são oficialmente dedicados. Aqui reside a contradição sobre a qual o sindicalismo se debate. O conflito entre os sindicatos e o movimento revolucionário não surge, em nenhum sentido fundamental, dos erros e fracassos dos líderes sindicais – embora ambos sejam abundantemente encontrados entre eles –, mas da própria natureza dos sindicatos. No centro desse conflito está a oposição orgânica dos sindicatos ao desenvolvimento e ampliação da luta de classes. Essa oposição torna-se ainda mais determinada, amarga e mortal à medida que a luta de classes parece ameaçar as relações de produção do capitalismo, isto é, os fundamentos socioeconômicos do próprio sindicalismo.

Essa oposição, além disso, dirige-se contra o movimento socialista, que representa a classe trabalhadora, não em seu papel limitado de vendedora da força de trabalho, mas em sua capacidade histórica de antítese revolucionária das relações de produção do capitalismo.

Esses dois aspectos críticos do sindicalismo – sua tendência de buscar a supressão da luta de classes e sua hostilidade ao movimento socialista – são fortemente amparados pelo registro histórico. A esse respeito, a história do movimento sindical em dois países, Inglaterra e Alemanha, oferecem importantes lições e esclarecimentos.

O sindicalismo na Inglaterra

A Inglaterra é comumente considerada como a grande casa do sindicalismo moderno, onde, através dessa forma de organização, a classe trabalhadora obteve realizações notáveis. De fato, essa foi a impressão que os sindicatos causaram em Eduard Bernstein, durante sua estadia prolongada na Inglaterra no final dos anos 1880 e 1890. Os supostos sucessos do sindicalismo britânico convenceram Bernstein de que eram as lutas econômicas dessas organizações, não os esforços políticos do movimento revolucionário, que seriam o fator decisivo no avanço da classe trabalhadora e na gradual transformação da sociedade em direção ao socialismo.

Tudo o que é dito hoje pelos radicais pequeno-burgueses foi antecipado há um século pelo fundador do revisionismo moderno. O fato de seus argumentos terem 100 anos não os tornam, por si mesmos, inválidos. Afinal de contas, admito livremente que alguns dos argumentos que estou usando também têm 100 anos – por exemplo, os argumentos empregados por Rosa Luxemburgo contra Bernstein. Esses argumentos, no entanto, têm a vantagem de terem sido corroborados no decorrer dos últimos cem anos, enquanto os dos neo-bernsteinianos foram refutados. Na verdade, os críticos contemporâneos de Bernstein notaram que sua avaliação das conquistas econômicas do sindicalismo britânico era grosseiramente exagerada. De fato, a ascendência do sindicalismo, cuja elevação a um papel dominante no movimento operário havia começado na década de 1850, foi uma expressão da degeneração política e da estagnação intelectual que se seguiu após a derrota do grande movimento político revolucionário da classe trabalhadora britânica, o cartismo. O movimento cartista representou a culminação de uma fermentação política, cultural e intelectual que atingiu amplos setores da classe trabalhadora nas décadas que se seguiram à Revolução Francesa. Anos após a derrota final do cartismo em 1848-49, Thomas Cooper, um dos seus líderes mais respeitados, contrastou o espírito revolucionário do antigo movimento com a visão intelectual limitada pequeno-burguesa cultivada pelos sindicatos. Ele escreveu em sua autobiografia:

Em nossa velha era cartista, é verdade que os trabalhadores de Lancashire estavam em farrapos aos milhares; e muitos deles frequentemente não tinham o que comer. Mas a inteligência deles era demonstrada onde quer que você fosse. Você os veria em grupos, discutindo a grande doutrina da justiça política – que todo homem sadio e adulto deveria ter um voto na eleição dos homens que fariam as leis pelas quais ele seria governado; ou eles estavam em séria disputa com respeito aos ensinamentos do socialismo. Agora, você não verá nenhum grupo em Lancashire. Mas você ouvirá homens trabalhadores bem vestidos, com as mãos nos bolsos, falando de cooperativas e suas ações nelas ou na construção de sociedades. [6]

Um novo tipo de líder operário surgiu com os sindicatos: cavalheiros pouco notáveis que ansiavam pela respeitabilidade da classe média e pregavam o novo evangelho dos acordos entre as classes tomaram o lugar dos antigos cartistas revolucionários. Como Theodore Rothstein, historiador socialista do cartismo, escreveu:

Homens de grande talento, grande temperamento, de grande e profunda erudição, que há apenas alguns anos haviam abalado os próprios alicerces da sociedade capitalista e haviam sido seguidos por centenas de milhares de operários, eram agora figuras solitárias que se moviam na obscuridade, incompreendidas pela maioria, entendida apenas por pequenos grupos dos poucos selecionados, enquanto seu lugar era ocupado por homens novos que não possuíam uma fração de seu intelecto, talento e caráter, e atraíam centenas de milhares de trabalhadores semelhantes através do evangelho superficial de “vá atrás das migalhas” e da necessidade de chegar a um acordo com os empregadores sobre este assunto, mesmo à custa da independência de classe. [7]

Quanto ao sindicalismo, Rothstein ofereceu a seguinte avaliação:

A característica distintiva dessa perspectiva mental era a aceitação da sociedade capitalista, que encontrava expressão na rejeição da ação política, e no reconhecimento dos ensinamentos da economia política vulgar sobre a harmonia de interesses entre o empregador e a classe trabalhadora. [8]

Os defensores do sindicalismo argumentaram que a retirada dos trabalhadores britânicos da ação política era necessária para permitir que a classe concentrasse sua energia nas oportunidades mais promissoras proporcionadas pela luta econômica. Esta teoria é refutada pelo fato de que a ascensão do sindicalismo não estava associada à intensificação das lutas econômicas, mas, sim, ao seu repúdio geral pelos novos líderes da classe trabalhadora. Entre o início da década de 1870 e meados da década de 1890, o auge do sindicalismo na Inglaterra, os salários dos trabalhadores estagnaram. O fato de o sindicalismo não ter sido desacreditado durante esse período deve ser explicado pelo fato de ter havido uma queda maciça nos preços dos bens de primeira necessidade, como farinha, batata, pão, carne, chá, açúcar e manteiga.

Nas primeiras décadas do século XIX, quando os sentimentos revolucionários eram amplos entre os trabalhadores, a burguesia inglesa havia resistido duramente a todas as tendências à negociação. Mas, no final do século, a burguesia havia passado a apreciar o serviço prestado pelos sindicatos à estabilidade do capitalismo – especialmente ao servir como uma barreira ao ressurgimento de tendências socialistas dentro da classe trabalhadora. Como escreveu o economista burguês alemão, Brentano: Se os sindicatos fracassassem na Inglaterra,

de modo algum isso significaria o triunfo dos empregadores. Isso significaria o fortalecimento das tendências revolucionárias em todo o mundo. A Inglaterra, que até então se gabava da ausência de um partido operário revolucionário de qualquer importância séria, seria daqui em diante rival do continente nesse quesito. [9]

Marx e Engels viveram como exilados revolucionários na Inglaterra durante o período da ascensão do sindicalismo. Mesmo antes de chegarem à Inglaterra, reconheceram a importância do sindicalismo como resposta da classe trabalhadora aos esforços dos empregadores para reduzir seus salários. Em oposição ao teórico pequeno-burguês Pierre-Joseph Proudhon, que negava a utilidade tanto dos sindicatos quanto das greves – com base no fato de que aumentos nos salários obtidos através de seus esforços levavam apenas a aumentos nos preços – Marx insistiu que ambos constituíam componentes necessários da luta da classe trabalhadora para defender seu padrão de vida.

Marx estava certamente correto em sua crítica aos pontos de vista de Proudhon, mas é necessário ter em mente que esses primeiros escritos foram produzidos numa época em que os próprios sindicatos ainda tinham contornos pouco definidos. A experiência da classe trabalhadora com essa nova forma organizacional era extremamente limitada. Não se podia excluir a possibilidade, naquela época, de que os sindicatos pudessem ainda se transformar em instrumentos potentes da luta revolucionária, ou, pelo menos, nos precursores diretos de tais instrumentos. Essa esperança foi expressa em uma observação de Marx em 1866, segundo a qual os sindicatos, como “centros de organização”, exerciam para a classe trabalhadora o mesmo papel “que os municípios e comunas medievais representavam para a classe média”. [10]

Mesmo nessa época, porém, Marx estava preocupado com o fato de que “os sindicatos operários ainda não entenderam plenamente seu poder de agir contra o sistema de escravidão assalariada em si”. Mas seria nessa direção que eles teriam que evoluir:

Além de seus propósitos originais, eles devem agora aprender a agir deliberadamente como centros organizadores da classe trabalhadora no amplo interesse de sua completa emancipação. Eles devem ajudar todos os movimentos sociais e políticos que tendem nessa direção. Considerando-se e agindo como os defensores e representantes de toda a classe trabalhadora, eles não podem deixar de alistar os homens que não são da sociedade em suas fileiras. Eles devem olhar cuidadosamente para os interesses dos setores mais mal pagos, como os trabalhadores agrícolas, tornados impotentes por circunstâncias excepcionais. Eles devem convencer o mundo em geral de que seus esforços, longe de serem estreitos e egoístas, visam à emancipação dos milhões de oprimidos. [11]

Marx procurou dar aos sindicatos uma orientação socialista. Ele alertou os trabalhadores a “não exagerarem para si mesmos” a importância das lutas empreendidas pelos sindicatos. No máximo, os sindicatos estavam “lutando contra efeitos, mas não contra as causas desses efeitos; que eles estão retardando as perdas; que eles estão aplicando paliativos, não curando a enfermidade.” Era necessário que os sindicatos assumissem uma luta contra o sistema que era a causa das misérias dos trabalhadores; e, portanto, Marx propôs aos sindicatos que eles abandonassem a sua palavra de ordem conservadora, “Um dia de salário justo para um dia de trabalho justo”, e a substituísse pela exigência revolucionária, “Abolição do sistema de salários”. [12]

Mas o conselho de Marx causou pouca impressão e, no final da década de 1870, as observações de Marx e Engels sobre o sindicalismo haviam assumido um caráter muito mais crítico. Agora que os economistas burgueses expressavam maior simpatia pelos sindicatos, Marx e Engels se esforçaram para qualificar seu apoio anterior. Distinguiram seus pontos de vista daqueles de pensadores burgueses, como Lujo Brentano, cujo entusiasmo pelos sindicatos era ditado, segundo Marx e Engels, por seu desejo de “transformar os escravos assalariados em escravos assalariados satisfeitos”. [13]

Em 1879, era possível detectar nos escritos de Engels sobre o sindicalismo um tom inconfundível de desgosto. Ele observou que os sindicatos haviam introduzido estatutos organizacionais que proibiam a ação política, barrando assim “qualquer participação em qualquer atividade geral por parte da classe trabalhadora como classe”. Em uma carta para Bernstein, datada de 17 de junho de 1879, Engels reclamava que os sindicatos haviam levado a classe trabalhadora a um beco sem saída:

Nenhuma tentativa deve ser feita para esconder o fato de que, neste momento, um genuíno movimento operário no sentido continental é inexistente aqui, e, portanto, eu não acredito que você perderá muito se, por enquanto, você não receber quaisquer relatórios sobre as ações dos SINDICATOS por aqui. [14]

Em um artigo escrito seis anos depois, no qual ele contrastou a Inglaterra de 1885 com a de 1845, Engels não fez nenhuma tentativa de ocultar seu desprezo pelo papel conservador desempenhado pelos sindicatos. Formando uma aristocracia dentro da classe trabalhadora, eles cultivavam as relações mais amistosas com os empregadores, a fim de assegurar para si uma posição confortável. Os sindicalistas, escreveu Engels, com sarcasmo mordaz, “são pessoas muito legais de se lidar hoje em dia, de fato, para qualquer capitalista sensato em particular e para toda a classe capitalista em geral”. [15]

Os sindicatos tinham ignorado a grande massa da classe trabalhadora, para quem

o estado de miséria e insegurança em que eles vivem agora é tão baixo como sempre foi, senão pior. O extremo leste de Londres é um conjunto cada vez maior de miséria e desolação estagnada, de fome quando fora do trabalho e degradação física e moral, quando no trabalho. [16]

As esperanças de Engels foram despertadas, no final da década de 1880, pelo desenvolvimento de um novo movimento sindical militante entre setores mais explorados da classe trabalhadora. Os socialistas, incluindo Eleanor Marx, eram ativos nesse novo movimento. Engels respondeu a esses desenvolvimentos com entusiasmo e observou com grande satisfação:

Esses novos sindicatos de homens e mulheres não qualificados são totalmente diferentes das antigas organizações da aristocracia da classe trabalhadora e não podem cair nos mesmos modos conservadores. E eles estão organizados sob circunstâncias bastante diferentes – todos os principais homens e mulheres são socialistas e agitadores socialistas também. Neles eu vejo o início realdo movimento aqui. [17]

Mas não demorou muito para que esses “novos” sindicatos começassem a exibir as mesmas tendências conservadoras que os antigos. Essa foi uma verificação inicial da concepção teórica que consideramos decisiva para a análise dos sindicatos – ou seja, que o caráter dessas organizações não é determinado pela posição social e status dos setores particulares de trabalhadores organizados dentro deles. Esses são fatores que, no máximo, só influenciam certos aspectos secundários da política sindical – talvez tornando alguns sindicatos mais ou menos militantes que a média. No entanto, em última instância, a forma sindical, cuja estrutura é proveniente das, e embutida nas, relações sociais e de produção do capitalismo, e, devemos acrescentar, na estrutura do estado-nação, exerce a influência decisiva que determina a orientação do seu “conteúdo” – os membros da classe trabalhadora.

A socialdemocracia alemã e os sindicatos

No continente, especialmente na Alemanha, lições teóricas estavam sendo tiradas dessas primeiras experiências com o sindicalismo. Os socialistas alemães viam os sindicatos ingleses, não como os precursores do socialismo, mas como a expressão organizacional da dominação política e ideológica da classe trabalhadora pela burguesia. Essa atitude crítica surgiu não apenas com base em insights teóricos, mas também refletia uma relação muito diferente de forças dentro do movimento operário, entre o partido político marxista e os sindicatos. Na Alemanha, o impulso para o desenvolvimento de um movimento de trabalhadores em massa fora fornecido não pelos sindicatos, mas pelo Partido Socialdemocrata Alemão (SPD, na sigla em alemão), que havia conseguido, entre 1878 e 1890 – o período das Leis Antissocialistas de Bismarck – estabelecer sua autoridade política como liderança da classe trabalhadora. Foi por iniciativa do SPD que os chamados sindicatos “livres” foram estabelecidos, principalmente para atuar como agências de recrutamento para o movimento socialista.

A influência dos sindicatos – auxiliados pelo SPD, do qual eles atraíram seus principais quadros e insights políticos – começou a se expandir na década de 1890. Mas os efeitos persistentes da longa depressão industrial detiveram seu crescimento e, em 1893, a proporção de eleitores socialdemocratas para sindicalistas era de oito para um. Ainda assim, expressou-se a preocupação dentro do SPD de que os sindicatos pudessem tentar competir com o partido por influência na classe trabalhadora. Isso foi vigorosamente negado pelos sindicatos, cujo líder, Carl Legien, os definiu no congresso do partido em Colônia, em 1893, como “escolas de recrutamento do partido”.

No entanto, com o fim da depressão industrial em 1895, os sindicatos alemães começaram a crescer rapidamente; e a mudança na relação de forças aumentou as tensões entre o partido e os sindicatos. Em 1900, os sindicatos contavam com 600.000 membros. Quatro anos depois, esse número havia aumentado para um milhão. Conforme a proporção de eleitores do SPD para membros dos sindicatos diminuía, a dependência do SPD dos votos dos sindicalistas aumentava significativamente.

Embora os próprios líderes sindicais não oferecessem qualquer apoio político a Bernstein quando ele desenrolou a bandeira do revisionismo pela primeira vez, foi amplamente compreendido nos círculos partidários que suas teorias só poderiam levar a uma reorientação do movimento socialista alemão da mesma maneira que acontecera na Inglaterra, onde os sindicatos reformistas haviam substituído o partido político revolucionário como o eixo do movimento operário.

Enquanto se opunham a Bernstein, os principais teóricos da Socialdemocracia prestavam particular atenção ao seu esforço para retratar os sindicatos como o bastião indispensável do movimento socialista. Foi, naturalmente, Rosa Luxemburgo quem assumiu a liderança nessa luta. Nesse sentido, seu trabalho mais importante foi Reforma ou Revolução, em que ela fez picadinho da afirmação de Bernstein de que os esforços dos sindicatos efetivamente contrariavam os mecanismos de exploração do capitalismo e levavam, ainda que gradualmente, à socialização da sociedade. Luxemburgo insistia que isso era totalmente falso: que o sindicalismo não levava à abolição da exploração de classe. Ao invés disso, buscava assegurar que o proletariado, dentro da estrutura de exploração do capitalismo, recebesse, na forma de salários, o melhor preço que o mercado permitisse.

O que poderia ser alcançado pelos esforços dos sindicatos, em termos de aumento dos salários dos trabalhadores, era limitado pelas flutuações do mercado e pela dinâmica geral da expansão capitalista. A sociedade capitalista, ela alertava, não estava se movendo “em direção a uma época marcada por um desenvolvimento vitorioso dos sindicatos, mas, sim, em direção a um tempo em que as dificuldades dos sindicatos aumentarão”. [18] Assim, quaisquer que fossem os ganhos temporários alcançados pelos sindicatos, eles estavam mergulhados em um “trabalho de Sísifo”, uma vez que seu trabalho permanecia enraizado dentro dos limites estabelecidos pelo sistema capitalista. Os líderes sindicais nunca perdoaram Luxemburgo por fazer uso dessa metáfora alada, que oferecia uma avaliação tão devastadoramente adequada e antecipadora das atividades dos sindicatos.

Esse resumo dificilmente faz justiça à análise de Luxemburgo das razões para a incapacidade dos sindicatos de fazer mais do que mitigar, e só temporariamente, a exploração da classe trabalhadora sob o capitalismo. Outro aspecto de sua crítica ao bernsteinismo é especialmente relevante: sua negação de que há algo inerente ou implicitamente socialista nas atividades dos sindicatos, ou que seu trabalho contribui necessariamente para a vitória da causa socialista. Luxemburgo não negava que os sindicatos, na medida em que eram liderados por socialistas, pudessem prestar um serviço importante ao movimento revolucionário. De fato, ela esperava, através de suas críticas, trabalhar para tal desenvolvimento. (É outra questão, que vamos considerar mais tarde, se esse objetivo seria alcançável).

“São precisamente os sindicatos ingleses”, escreveu Luxemburgo:

Como os representantes clássicos da mentalidade complacente, correta e estreita, que testemunham o fato de que o movimento sindical, em si e para si, é totalmente não socialista; de fato, pode ser, sob certas circunstâncias, um obstáculo direto para a expansão da consciência socialista; assim como, no caso oposto, a consciência socialista pode ser um obstáculo para a obtenção de êxitos puramente sindicais. [19]

Esse trecho continua sendo uma refutação impressionante para todos aqueles que se adaptam servilmente aos sindicatos e suas burocracias, e que não podem conceber um movimento operário em nenhuma outra forma além da sindical. Como fica muito claro, não existem ligações orgânicas e inquebráveis entre o sindicalismo e o socialismo. Eles não estão, necessariamente, seguindo trajetórias paralelas rumo ao mesmo destino geral. Ao invés disso, o sindicalismo, que por sua natureza é, como afirmou Luxemburgo, “totalmente não-socialista”, mina o desenvolvimento da consciência socialista. E, além disso, os princípios políticos dos socialistas, que exigem que eles baseiem suas atividades nos interesses históricos da classe trabalhadora, vão contra os objetivos práticos dos sindicatos.

Na Inglaterra, os sindicatos se desenvolveram sobre as ruínas do cartismo e independentemente do movimento socialista. Na Alemanha, por outro lado, os sindicatos surgiram sob a tutela direta do movimento socialista. Seus líderes foram diligentemente instruídos nos ensinamentos de Marx e Engels. E, no entanto, em essência, os sindicatos alemães não eram mais dedicados ao socialismo do que os da Inglaterra. Na virada do século, tendo se tornado mais autoconfiantes pela entrada de centenas de milhares de novos membros, os sindicatos indicavam seu desconforto com a influência política do partido e a subordinação a seus objetivos políticos. Esse desconforto encontrou expressão em uma nova proposta política: a da neutralidade política. Um setor crescente de líderes sindicais começou a argumentar que não havia razão para que suas organizações devessem qualquer lealdade especial às campanhas do SPD. Na verdade, a dominação do SPD, eles argumentavam, custava aos sindicatos a possibilidade de ganhar membros entre trabalhadores que não tinham interesse na, ou eram opostos à, política socialista. Entre os principais representantes dessa tendência estava Otto Hué, que insistia que os sindicatos só poderiam servir aos “interesses profissionais (e não de classe)” de seus membros se adotassem uma posição de neutralidade política. “Onde os trabalhadores”, escreveu Hué, “acabam politicamente sob condições de neutralidade sindical é e deve ser uma questão indiferente para os líderes sindicais.”

Os sindicatos e a “greve em massa”

Entre 1900 e 1905, a tensão aumentou entre o partido e os sindicatos. Os dirigentes sindicais, na qualidade de delegados aos congressos do SPD, continuaram a votar em favor da ortodoxia socialista. Sua hostilidade inata ao socialismo como um movimento revolucionário ainda não havia chegado ao ponto de estarem prontos para desafiar diretamente o compromisso político do SPD com a luta pelo poder do Estado. Isso foi alterado pelos eventos de 1905, tanto dentro da Alemanha quanto além de suas fronteiras.

A explosão da revolução em toda a Rússia afetou a classe trabalhadora alemã. Os trabalhadores seguiram com intenso interesse a cobertura detalhada das lutas revolucionárias na imprensa socialista. Os eventos russos, além disso, coincidiram com, e aparentemente inspiraram, a erupção de uma onda de greves duras em toda a Alemanha, mas especialmente entre os mineiros no Vale do Ruhr. Apesar da militância dos trabalhadores, as greves encontraram forte resistência dos proprietários das minas. Os sindicatos ficaram surpresos com a intransigência dos proprietários, à qual não tinham resposta efetiva. As greves foram suspensas, abalando assim a confiança dos trabalhadores na eficácia das táticas sindicais tradicionais.

Nesta nova situação, Luxemburgo, apoiada por Kautsky, argumentava que os acontecimentos na Rússia eram de importância para toda a Europa e haviam revelado aos trabalhadores alemães o potencial de uma nova forma de luta em massa: a greve política. A ideia de uma greve política em massa encontrou amplo apoio na classe trabalhadora. Mas os líderes sindicais ficaram horrorizados com as implicações dos argumentos de Luxemburgo. Se os operários agissem com base nas teorias de Luxemburgo, os sindicatos se veriam envolvidos em “aventuras revolucionárias” que os dirigentes sindicais achavam que não eram da sua conta. Greves em massa custariam aos sindicatos enormes quantias de dinheiro e poderiam esvaziar suas contas bancárias das reservas de caixa das quais os líderes estavam tão orgulhosos.

Para evitar tal catástrofe, os líderes sindicais decidiram lançar um ataque preventivo contra Luxemburgo e outros radicais do SPD. No congresso sindical realizado em Colônia, em maio de 1905, uma comissão especial foi criada para preparar uma resolução que definiria a atitude dos sindicatos quanto à questão da greve em massa. O porta-voz da comissão, Theodore Bömelburg, declarou:

Para desenvolver ainda mais nossas organizações, precisamos de paz no movimento operário. Precisamos fazer com que a discussão sobre a greve em massa desapareça e que as soluções [dos problemas] do futuro sejam deixadas em aberto até que chegue a hora apropriada. [20]

No que equivalia a uma declaração de guerra à esquerda do SPD, o congresso dos sindicatos adotou uma resolução que declarava que a discussão sobre a questão de uma greve política em massa era inadmissível dentro dos sindicatos. Essa resolução advertia os trabalhadores a “não se deixarem distrair pela recepção e propagação de tais ideias das pequenas tarefas do dia-a-dia de construir a organização do trabalho”. [21]

O SPD foi abalado pela rebelião dos líderes sindicais contra o partido. Kautsky declarou que o congresso havia revelado a profundidade da alienação dos sindicatos do partido, e notou, com um tom de ironia, que parecia absurdo para ele que o “desejo dos sindicatos de paz e tranquilidade” tivesse sido proclamado em um ano “que foi o mais revolucionário em toda a história humana”. Era evidente para Kautsky que os líderes sindicais estavam mais preocupados com o destino das contas bancárias da organização do que com a “qualidade moral das massas”.

Para os dirigentes sindicais, o ódio à ala esquerda do SPD assumiu dimensões patológicas. Rosa Luxemburgo, em particular, era o alvo perene de denúncias furiosas. Otto Hué, que editava o jornal dos mineiros, instou aqueles que tinham um excesso de energia revolucionária a ir para a Rússia “em vez de propagar a discussão sobre greves gerais de seus resorts de verão”. [22] Os ataques a Luxemburgo se intensificaram, mesmo enquanto ela definhava em uma prisão polonesa após ser presa por suas atividades revolucionárias. Enojado pelos cruéis ataques pessoais contra Luxemburgo, que ainda era sua amiga e aliada, Kautsky denunciou a perseguição de “uma líder da luta de classes proletária”. Não era Luxemburgo, escreveu ele, que colocava em perigo as relações entre o partido e os sindicatos, mas, sim, os sindicalistas que sentiam um “ódio estreito por esses elementos, contra qualquer forma do movimento operário que se colocasse um objetivo maior do que cinco tostões a mais por hora...”. [23]

Por um tempo, a liderança do SPD contra-atacou os sindicalistas, mas o fez com a maior cautela possível. No congresso do partido em Jena de setembro de 1905, Bebel apresentou uma resolução habilidosamente redigida que reconhecia parcialmente a validade da greve política em massa – mas apenas como uma arma defensiva. Em troca, os sindicatos aceitavam a formulação de Bebel, mas apenas brevemente. No congresso do partido em Mannheim, em setembro de 1906, os líderes sindicais exigiram, e obtiveram do SPD, a aprovação de uma resolução que estabelecia o princípio da “igualdade” entre os sindicatos e o partido. Isso significava que, em todas as questões que abordavam assuntos que eram de interesse direto dos sindicatos, o partido tinha que elaborar uma posição que fosse aceitável para eles. Passando por cima de desgastantes objeções, os líderes do partido colaboraram com os sindicalistas para acabar burocraticamente a discussão e impor a resolução.

Deste momento em diante, o SPD foi efetivamente dirigido pela comissão geral dos sindicatos. A relação entre os sindicatos e o partido era, como notou Luxemburgo, como a da mulher camponesa megera, que dizia ao marido: “Sempre que surgirem dúvidas entre nós, usaremos o seguinte procedimento: Quando concordarmos, você decidirá. Quando discordarmos, eu decidirei.”

Em suas disputas com Luxemburgo e as forças revolucionárias dentro do SPD, os dirigentes sindicais alegavam que tinham uma ideia muito melhor do que o trabalhador médio realmente queria do que os teóricos revolucionários. Preocupados com suas abstrações e visões utópicas, Luxemburgo e revolucionários de sua espécie não teriam realmente respostas práticas para os problemas enfrentados pelos trabalhadores nas minas ou no chão de fábrica. Tudo bem os teóricos sonharem com um futuro cataclismo revolucionário e com a utopia socialista que emergiria dele, mas no aqui e agora os trabalhadores estariam muito mais preocupados com alguns tostões extras em seus contracheques semanais.

Provavelmente era verdade que os argumentos dos dirigentes sindicais refletiam a perspectiva de setores substanciais de trabalhadores durante os anos em que o debate sobre a greve em massa apareceu pela primeira vez. É até possível que, se a questão tivesse sido posta em votação em 1905 ou 1906, mais trabalhadores teriam votado na posição de Legien do que na de Luxemburgo. No entanto, ao considerar a postura dos trabalhadores frente à disputa entre os marxistas e os sindicalistas reformistas, é importante ter em mente o seguinte: os sindicalistas eram, por assim dizer, institucional e constitucionalmente “comprometidos” com as políticas que vinham da dependência orgânica de seus sindicatos das relações de produção capitalistas e da configuração do estado nacional. A classe trabalhadora, como uma força social revolucionária, não estava comprometida dessa maneira com o programa gradualista de adaptação reformista.

O desenvolvimento das contradições subjacentes do sistema capitalista desgastou o tecido do equilíbrio social na Alemanha. Com o aumento das tensões de classe, os trabalhadores adotaram uma postura mais agressiva e hostil em relação aos empregadores e ao Estado. Em 1910-11, havia sinais claros de que os argumentos de Luxemburgo haviam começado a ressoar entre setores mais amplos da classe trabalhadora. Especialmente depois das greves de 1912-13, que fracassaram diante da dura resistência dos empregadores, a insatisfação dos trabalhadores com os sindicatos oficiais aumentou significativamente.

A eclosão da guerra mundial em agosto de 1914 interrompeu temporariamente o processo de radicalização da classe trabalhadora alemã. Mas, em 1915-16, o descontentamento social da classe trabalhadora, exacerbado pela guerra, transbordou as barreiras erguidas pelos sindicatos oficiais. Os velhos argumentos burocráticos contra a greve política em massa finalmente receberam sua resposta decisiva em outubro-novembro de 1918, com a eclosão da Revolução Alemã. O caráter revolucionário do movimento de massas se expressou, como fora antecipado teoricamente por Luxemburgo e prenunciado na prática pela Revolução Russa, em novas formas de organização – comitês de base e especialmente conselhos de trabalhadores – que haviam surgido em oposição aos sindicatos oficiais.

As experiências da classe trabalhadora alemã e inglesa representaram o maior teste histórico do sindicalismo. Poderíamos, se tivéssemos tempo suficiente, suplementar e substanciar nossa análise do conflito entre socialismo e sindicalismo com inúmeros exemplos, tirados de muitos outros países e abrangendo todas as décadas deste século, até nossos dias.

A necessidade da consciência socialista

O objetivo desta palestra não foi fornecer tantos exemplos quantos possíveis do caráter traidor dos sindicatos. Pelo contrário, seu objetivo é fundamentar a necessidade da consciência socialista e da luta pelo seu desenvolvimento na classe trabalhadora. Aqui reside a importância do partido marxista revolucionário. Mesmo que ocorresse um renascimento da militância espontânea de um caráter sindicalista – e tal desenvolvimento seria impensável sem rebeliões explosivas das bases contra as antigas organizações burocráticas –, o desenvolvimento de um movimento tão promissor em linhas revolucionárias dependeria do trabalho independente do partido marxista, lutando para levar a consciência socialista para a classe trabalhadora.

Todos aqueles que insistem na autoridade incontestável dos sindicatos se opõem à luta pelo marxismo na classe trabalhadora. Cliff Slaughter [24], por exemplo, denuncia aqueles marxistas [do Comitê Internacional] “que persistem em pensar que eles têm a missão de ‘elevar a consciência’, ‘intervir politicamente’ e ‘politizar’ as lutas da classe trabalhadora que surgirem espontaneamente...”. [25]

Esta declaração evidencia o repúdio do marxismo por Slaughter e a adoção do anarquismo da classe média. Estamos agora nos aproximando do fim de um século que testemunhou a mais terrível das tragédias históricas. O preço pago em sangue pelas derrotas e traições das muitas lutas revolucionárias deste século é incalculável. São centenas de milhões de vítimas que podem ser contadas como consequências políticas das revoluções traídas. Nesta década, temos visto os resultados da desorientação da classe trabalhadora na antiga União Soviética. E, no entanto, em meio a essa desorientação política universal, Slaughter denuncia aqueles que buscam superar essa desorientação com base na ciência socialista.

Os interesses da classe trabalhadora não podem ser defendidos pela glorificação de sua ação espontânea – isto é, o nível predominante de consciência e as formas dadas de organização. No caso de Slaughter e ex-marxistas parecidos, tais devoções à espontaneidade servem apenas como uma cobertura para sua própria colaboração com as burocracias trabalhistas e sindicais. Não pedimos desculpas por insistirmos que o futuro da classe trabalhadora depende da força de nossas intervenções políticas e do sucesso de nossos esforços para elevar sua consciência.

Nós nos baseamos nos fundamentos estabelecidos pelos grandes fundadores e representantes do socialismo científico. Rejeitamos a declaração de Slaughter como um repúdio aos princípios essenciais que constituíram a razão de ser histórica do movimento marxista desde seus primeiros dias. O proletariado é o sujeito histórico ativo do projeto socialista. Mas o socialismo não surgiu, e não poderia surgir, diretamente da classe trabalhadora. Ele possui sua própria história intelectual. Marx nunca afirmou que sua concepção das tarefas históricas do proletariado se enquadrava em qualquer que fosse a “opinião pública” geral da vasta maioria dos trabalhadores em um dado momento de seu desenvolvimento. É absurdo até mesmo sugerir que Marx devotou toda a sua vida à formulação de ideias que apenas reproduzissem o que o trabalhador médio provavelmente pensaria por conta própria.

Se a consciência socialista fosse gerada pelo desenvolvimento espontâneo da luta de classes, não haveria razão para organizar esta escola internacional. Que necessidade haveria em realizar palestras sobre história, filosofia, economia política, estratégia revolucionária e cultura se a classe trabalhadora, com suas organizações em massa atuais e o nível predominante de consciência política e histórica, pudesse automaticamente elevar-se ao nível das tarefas que estão sendo colocadas diante dela pelo desenvolvimento da crise mundial do capitalismo?

Vamos considerar o pano de fundo político diante do qual esta escola está sendo realizada. Enquanto nos reunimos aqui, as economias do Sudeste Asiático estão em crise. Quase da noite para o dia, a vida de centenas de milhões de pessoas está sendo colocada em perigo. Na Indonésia, o valor da moeda caiu 22% antes de ontem. Ao longo de seis meses, a rúpia indonésia perdeu quase 80% de seu valor. O FMI está exigindo um regime de austeridade brutal e, nessas condições, a erupção de grandes lutas sociais é inevitável.

No entanto, o resultado dessas lutas não depende da assimilação pela classe trabalhadora indonésia das lições trágicas de sua própria história, que constituem outro capítulo de pesadelo na história do século XX? Não é necessário rever com trabalhadores indonésios, estudantes e intelectuais os acontecimentos de 1965-66 – isto é, como o maior Partido Comunista do mundo fora da URSS e da China, com mais de um milhão de membros, se mostrou impotente diante do golpe de Suharto? Mais de meio milhão de pessoas foram massacradas naquela contrarrevolução. Os rios de Sumatra e Bali estavam entupidos com os cadáveres dos assassinados. As execuções de prisioneiros presos após o golpe de Suharto continuaram até os anos 1990. Mas quantas perguntas e problemas permanecem sem resposta e não esclarecidos! As lições estratégicas daquele período constituem a base para a vingança histórica que os trabalhadores indonésios precisam ter pelos crimes cometidos pela burguesia indonésia, que foi apoiada pelo imperialismo estadunidense e, eu poderia acrescentar, australiano.

A questão aqui não é um problema indonésio, mas uma tarefa histórica mundial. Assim, terminamos esta escola como a iniciamos, enfatizando que o futuro da humanidade no século XXI depende de sua assimilação das lições das experiências históricas estratégicas do século XX. E se eu fosse obrigado a declarar, em poucas palavras, a principal conclusão a que chegamos ao final de nossa análise deste século conturbado, eu diria que o destino da humanidade está inescapavelmente entrelaçado com a luta pelo desenvolvimento da consciência e da cultura socialista na classe trabalhadora internacional, uma luta que encontra sua expressão política na construção do Partido Mundial da Revolução Socialista.

Notas

[1] Peter Taaffe, Trade Unions in the Epoch of Neo-Liberalism, In: Socialism Today.

[2] Ibid.

[3] Ibid.

[4] Workers International Press, Número 1, fevereiro de 1997, p. 21.

[5] Karl Marx, Capital, Volume 1 (Nova York: International Publishers, 1967), p. 76.

[6] Citado em Theodore Rothstein, From Chartism to Labourism(Londres: Lawrence and Wishart, 1983), p. 183-184.

[7] Ibid., p. 195.

[8] Ibid., p. 197.

[9] Ibid., p. 273.

[10] Karl Marx and Frederick Engels, Collected Works, Volume 20 (Nova York: International Publishers, 1985), p. 191.

[11] Ibid., p. 192.

[12] Ibid., p. 149.

[13] Karl Marx and Frederick Engels, Collected Works, Volume 27 (Nova York: International Publishers, 1992), p. 98.

[14] Karl Marx and Frederick Engels, Collected Works, Volume 45 (Moscou: Progress Publishers, 1991), p. 361.

[15] Ibid., Volume 26 (Moscou: Progress Publishers, 1990), p. 299.

[16] Ibid.

[17] Citado em Hal Draper, Karl Marx’s Theory of Revolution, Volume 2: The Politics of Social Classes(Nova York: Monthly Review Press, 1978), p. 111.

[18] Rosa Luxemburg, Reform or Revolution (Nova York: Pathfinder Press, 1976), p. 36.

[19] Die englische Brille. In: Rosa Luxemburgo Gesammelte Werke, Volume 1/1 (Berlin: Dietz Verlag, 1990), p. 481 (tradução de D. North).

[20] Carl E. Schorske, German Social Democracy: 1905–1917; the Development of the Great Schism (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1983), pp. 39-40.

[21] Ibid., p. 40.

[22] Ibid., p. 41.

[23] Citado em Richard B. Day e Daniel Gaido, ed. e trad., Witnesses to Permanent Revolution (Leiden, Holanda: Brill Academic Publishers, 2009), p. 45.

[24] Cliff Slaughter é um ex-líder do Partido Revolucionário dos Trabalhadores Britânicos que rompeu politicamente com o Comitê Internacional da Quarta Internacional em 1986.

[25] Cliff Slaughter, Review of Istvan Mezsaros’ “Beyond Capital”, In: Workers International Press, Número 3, (Londres, Junho de 1997).