Depois das eleições turcas: Como a pseudo-esquerda se alinhou ao CHP

Parte II: O beco sem saída da orientação da pequena-burguesia ao CHP

Por Ulas Atesci e Alex Lantier
25 Outubro 2019

Publicado originalmente em 3 de outubro de 2019

Esta é a segunda parte de uma série de três artigos. Leia também a Parte I e a Parte III da série.

A onda de declarações de destacadas figuras da política pequeno-burguesa turca de que buscam uma aliança duradoura com o CHP mostra a hostilidade delas em relação à classe trabalhadora. Com isso, elas estão indicando que apoiam a guerra imperialista e são indiferentes aos direitos dos curdos e de outras minorias dentro das fronteiras do estado turco, assim como ao perigo de violentas operações de mudança de regime apoiadas pelos imperialistas na própria Turquia.

Se o CHP e o HDP são diferentes do AKP, é porque são ainda mais próximos das potências imperialistas, que estão há décadas em guerras no Iraque, na Síria e em todo o Oriente Médio. O CHP tem realizado há muito tempo uma campanha em prol dos chamados “valores europeus”, buscando construir laços mais próximos com a União Europeia (UE). Enquanto o governo de Erdoğan buscou se aproveitar das consecutivas guerras de agressão de Washington e da UE nos Balcãs, Oriente Médio e África desde a dissolução stalinista da União Soviética em 1991, o CHP apoiou as invasões de Erdoğan na Síria durante a guerra liderada pela OTAN para derrubar o presidente sírio, Bashar al-Assad. Nesse conflito, as milícias nacionalistas curdas apoiadas pelo HDP surgiram como a principal força na guerra por procuração da OTAN na Síria.

Esse histórico confirma negativamente a Teoria da Revolução Permanente de Leon Trotsky, que diz que, em países de desenvolvimento capitalista atrasado, a burguesia é incapaz de estabelecer um regime democrático. Profundamente ligada ao imperialismo e com medo da classe trabalhadora, ela não consegue realizar as tarefas que as revoluções democráticas do século XVIII nos EUA e na França cumpriram. Essas tarefas são de responsabilidade da classe trabalhadora, que deve liderar todas as classes oprimidas em uma luta para tomar o poder do estado. Assim, a revolução democráticatransforma-se em uma revolução socialista que, levada adiante em uma escala internacional, pode fornecer os recursos necessários da economia global para desenvolver uma sociedade próspera, democrática e socialista nos antigos países coloniais.

Hoje, a política dos partidos burgueses turcos é marcada permanentemente pelos acordos reacionários da burguesia turca com o imperialismo da OTAN e pela supressão da classe trabalhadora e nacionalidades oprimidas. Em 2015, o CHP apoiou a repressão do governo do AKP nas cidades curdas, em que 4 mil pessoas foram mortas, mais de 10 mil foram presas e 200 mil foram obrigadas a deixar suas casas. Em 2016, o CHP votou a favor de uma emenda constitucional apoiada pelo AKP retirando a imunidade parlamentar dos deputados do HDP. Por isso, hoje, os antigos líderes do HDP, Selahattin Demirtaş e Figen Yüksekdağ, e vários de seus ex-deputados ainda estão presos.

Uma vez que as eleições de março em Ancara e Istambul foram muito disputadas, os candidatos do CHP, Mansur Yavaş (um ex-militante do direitista Partido da Ação Nacionalista [MHP] nos anos 1970) e Ekrem İmamoğlu, publicaram tuites elogiando o fundador do CHP, Alparslan Türkeş. Um oficial fascista treinado nos Estados Unidos, Türkeş teve um importante papel na organização dos golpes apoiados pela OTAN na Turquia no século XX, particularmente aqueles de 1960 e 1980. Ele fundou o MHP em 1969, que liderou uma campanha de assassinato e repressão contra os trabalhadores, a juventude e intelectuais nos anos 1970.

Depois da sangrenta tentativa de golpe apoiado pela OTAN de julho de 2016 contra Erdoğan, está claro que a simpatia de Yavaş e İmamoğlu a Türkeş não é uma questão puramente histórica. Ela constitui uma ameaça não tão sútil de que o CHP busca o apoio de poderosas forças nas classes dominantes imperialistas e no exército turco. Seu alvo é, em primeiro lugar, a oposição de esquerda da classe trabalhadora.

Em 15 de julho de 2016, em meio à frustração crescente em Washington e Berlim por Erdoğan ter se aproximado da Rússia, unidades militares turcas, incluindo algumas operando a partir da base aérea da OTAN de Incirlik, lançaram um golpe contra o presidente turco. Elas bombardearam o parlamento da Turquia, tentaram tomar importantes áreas de grandes cidades turcas e enviaram uma equipe de assassinos por helicóptero para matar Erdoğan. À meia-noite, Erdoğan publicou um apelo à população turca para que se levantasse contra a tentativa de golpe. Depois de um aviso prévio de Moscou, Erdoğan conseguiu escapar da unidade do exército que havia sido enviada para matá-lo.

O que impediu o golpe foi a mobilização em massa da população turca. Apesar do histórico autoritário de Erdoğan, amplas camadas sociais na Turquia, principalmente a classe trabalhadora, lembraram o sangrento histórico de golpes apoiados pela OTAN de 1960, 1971 e 1980. Em 2016, mais de 200 pessoas morreram lutando para impedir a vitória de outro golpe.

As forças na aliança liderada pelo CHP, por outro lado, adotaram uma posição indiferente durante a tentativa de golpe. Elas não tentaram mobilizar seus apoiadores, criticando o golpe apenas depois de ter fracassado, quando Washington e Berlim foram obrigados a condenar formalmente a tentativa de golpe que haviam apoiado nos bastidores. Porém, o CHP depois apoiou os ataques reacionários de Erdoğan contra os direitos democráticos – incluindo a prisão de deputados do nacionalista curdo HDP, que, mesmo assim, apoiou o CHP nas eleições deste ano.

Esses acontecimentos revelam os mecanismos que a burguesia turca tem utilizado para suprimir a oposição da classe trabalhadora contra a austeridade e três décadas de guerras da OTAN no Oriente Médio. A chacina de milhões de pessoas e a devastação de países inteiros, que começaram com a guerra do Golfo no Iraque da OTAN em 1991 e as guerras que se seguiram no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, provocaram ampla oposição e revolta. Ainda assim, os partidos que foram promovidos como sendo da “esquerda radical” por décadas têm uma posição nacionalista alinhada ao CHP e, através dele, ao imperialismo. Hoje, em meio às preparações da guerra imperialista dos EUA contra o Irã, eles permanecem em completo silêncio sobre esse enorme perigo, que poderia facilmente se desenvolver em uma guerra regional e até mesmo global.

O fundamento de classe do apoio da pseudo-esquerda à guerra e austeridade

O alinhamento do ÖDP, EMEP, DSİP, DİP e outros partidos pequeno-burgueses ao CHP não é um equívoco ou o produto de confusões que eles podem ser convencidos a abandonar. Ao invés disso, ele reflete os interesses materiais de camadas anti-classe trabalhadora e antimarxistas da classe média privilegiada, que é a base desses partidos. Apesar de serem descendentes políticos dos ativistas stalinistas, pablistas ou nacionalistas pequeno-burgueses do movimento operário radical e da academia de esquerda dos anos 1960 e 1970, que eram alvos de sangrenta repressão dos golpes da OTAN, os burocratas sindicais e acadêmicos de “esquerda” se deslocaram drasticamente para a direita ao longo dos últimos 40 anos.

Essas camadas na classe média foram transformadas pela globalização da produção e pela restauração do capitalismo pelos regimes stalinistas na União Soviética, na Europa do Leste e na China entre 1989 e 1991, além das décadas seguintes de guerras imperialistas no Oriente Médio. Durante esse período, a Turquia surgiu como uma plataforma industrial barata para o capital europeu e como uma base para as guerras da OTAN no Oriente Médio. Isso transformou objetivamente a relação entre os sindicatos ou os movimentos de guerrilha, por um lado, e a classe trabalhadora, por outro.

A característica decisiva desses grupos havia sido a rejeição nacionalista deles da perspectiva internacionalista da Revolução Permanente, que embasou a tomada do poder pela classe trabalhadora na Revolução de Outubro de 1917 na Rússia e a luta contra o stalinismo liderada por Leon Trotsky e levada adiante pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI).

Depois da restauração capitalista entre 1989 e 1991, essas forças não poderiam mais se colocar como amigas da revolução de Outubro ao apontar para as suas alianças com o regime soviético ou maoísta. Ao mesmo tempo, elas se tornaram supervisoras dos trabalhadores, impondo as condições do mercado mundial nas fábricas turcas, que estavam cada vez mais alinhadas aos mercados da UE e mundial, ou forças militares das guerras por procuração das potências imperialistas na ocupação estadunidense do Iraque ou na guerra da OTAN na Síria.

A contradição de classe objetiva entre essas camadas e a classe trabalhadora, cujo descontentamento está enraizado na oposição à exploração capitalista e à guerra imperialista, intensificou-se enormemente. Apesar de essas organizações manterem “solidariedade”, “trabalho”, ou mesmo “revolução” nos nomes de seus partidos, elas se opõem conscientemente às lutas revolucionárias internacionais da classe trabalhadora. Isso fundamentou a análise do CIQI de que essas forças não são partidos de esquerda, mas a pseudo-esquerda pequeno-burguesa.

O levante inicial das lutas de classe no século XXI, tanto na Tunísia quanto no Egito em 2011, confirmou essa análise. Todos os principais partidos do establishment turco – incluindo o AKP, CHP, MHP e HDP – apoiaram as guerras por procuração lideradas pelos imperialistas na Líbia ou na Síria, que foram uma resposta das potências da OTAN ao levante revolucionário no norte da África. Por sua vez, as organizações da pseudo-esquerda alinharam-se aos partidos do establishment turco, apesar da crescente revolta social da classe trabalhadora na Turquia e ao redor do mundo.

Os partidos da pseudo-esquerda da Turquia são diretamente afiliados aos partidos políticos que se opuseram à revolução social no norte da África, apoiaram as guerras na Líbia e Síria com sendo “revoluções” e suprimiram as lutas da classe trabalhadora nos EUA e na Europa.

O EMEP, um partido stalinista pró-albanês, é afiliado ao Partido dos Trabalhadores da Tunísia de Hamma Hammami. Durante a revolução tunisiana, esse partido desempenhou um papel reacionário. Em nome da “luta pela democracia”, ele fez tudo o que pode para desviar o movimento revolucionário de massas dos trabalhadores e da juventude por trás da União Geral Tunisiana do Trabalho (UGTT), que apoiava o regime, e da elite dominante. Hoje, Hammami lidera a coalizão pequeno-burguesa da “Frente Popular”, que é profundamente integrada ao establishment dominante liderado pelo Nidaa Tounes – o partido que o velho regime de Zine El Abedien Ben Ali fundou para ser seu novo rosto público.

Com relação ao DSİP, seus afiliados egípcios, os Socialistas Revolucionários (RS), tiveram o papel decisivo de desarmar repetidas lutas revolucionárias da classe trabalhadora egípcia entre 2011 e 2013. Eles foram intensamente hostis à perspectiva de uma luta independente da classe trabalhadora pelo poder do estado. Em cada nova etapa da revolução, eles saudavam qualquer organização que a burguesia promovia – o Conselho Supremo da junta das Forças Armadas, a Irmandade Muçulmana do presidente Mohamed Mursi, ou a aliança Tamarod (“Rebelde”), que preparou o golpe do general Abdel Fattah al-Sisi em 2013. Ao bloquear a formação de uma liderança revolucionária e subordinar a classe trabalhadora aos políticos burgueses, os RS abriram o caminho para o estabelecimento da ditadura sanguinária de Sisi.

A década seguinte de guerras e luta de classes expôs a hostilidade da pseudo-esquerda à classe trabalhadora e aos direitos democráticos do povo curdo e de outras minorias nacionais. Desde o início, a pseudo-esquerda apoiou o “processo de paz” do AKP com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), a estratégia de Ancara para usar o PKK para fortalecer sua influência no Iraque e na Síria. Depois de décadas de guerras imperialistas, entretanto, ficou claro o fracasso dessa política de apelar a várias frações étnicas em disputa para garantir os direitos democráticos de minorias nacionais no Oriente Médio.

Inicialmente, Erdoğan apoiou prontamente a guerra estadunidense para derrubar o regime baathista de Bashar al-Assad e armar as milícias islâmicas que Washington usou como suas tropas de choque contra Assad. Mas ele recuou quando, após a derrota e colapso de seus aliados islâmicos, Washington tornou as Unidades de Proteção Popular (YPG) a principal força militar de sua guerra por procuração na Síria. O YPG é um racha do PKK, que hoje é o principal grupo curdo armado na Síria e contra o qual Ancara tem lutado nos últimos 35 anos de sua guerra sangrenta de contra insurgência no sudeste da Turquia.

O AKP terminou seu “processo de paz” com o PKK, que continuou de maneira inconstante entre 2009 e 2015. O HDP havia sido o principal apoiador do AKP em suas políticas contra os trabalhadores e pró-imperialistas durante o “processo de paz” com o PKK. Durante os protestos do Parque Gezi entre junho e julho de 2013, enquanto mais de 2,5 milhões de pessoas saíram às ruas contra o AKP, o HDP (então Partido para a Paz e Democracia – BDP) desencorajou os trabalhadores e a juventude curda de protestar, repetindo a política do CHP e dos sindicatos. O BDP se opôs a Erdoğan apenas depois que ele adotou uma posiçãohostilaos parceiros de Ancara da OTAN e reprimiu os nacionalistas curdos.

A pseudo-esquerda turca, agradecendo aos céus o surgimento de milícias nacionalistas curdas na Síria como a principal força terrestre de Washington em nome da “luta contra o Estado Islâmico”, tornou-se uma extensão política da reação da burguesia imperialista ou turca. Praticamente todos os grupos da pseudo-esquerda turca comemoraram esse processo como sendo uma “Revolução Rojava”, assumindo o nome dado pelas próprias milícias nacionalistas curdas à parte do território sírio que elas ocuparam sob a proteção do Pentágono. Vários membros e apoiadores desses grupos foram mortos na luta na guerra imperialista na Síria. Nas recentes eleições, esses partidos promoveram políticos do CHP, que estão agora apoiando planos do AKP para deportar em massa refugiados sírios e invadir a Síria para lutar contra as milícias curdas apoiadas pelos EUA na região.

A posição contra a classe trabalhadora que fundamenta essa política na Síria tomou forma aberta no apoio da pseudo-esquerda turca à Coalizão da Esquerda Radical (Syriza) na Grécia. Depois da derrota eleitoral do Syriza em julho deste ano, ela tem permanecido em silêncio sobre sua relação com esse partido de direita e anti-trabalhadores.

Eleito em janeiro de 2015 prometendo acabar com as políticas de austeridade da UE impostas sobre a Grécia, o Syriza traiu prontamente suas promessas. Recusando-se a apelar a uma ampla oposição à austeridade na classe trabalhadora europeia contra a UE, o Syriza, ao invés disso, fechou imediatamente um novo memorando de austeridade da UE.

Em julho de 2015, enquanto a UE ameaçava expulsar a Grécia da Zona do Euro se não ampliasse seus cortes sociais, o Syriza organizou um referendo sobre a austeridade da UE com a esperança de que o “sim” ganharia e ele entregaria o poder aos conservadores. Chocado pelo voto esmagador dos trabalhadores pelo “não” no referendo, o Syriza o ignorou e levou adiante uma política contra os trabalhadores. Impondo dezenas de bilhões de euros em cortes sociais, ele vendeu armas para a guerra saudita no Iêmen e prendeu dezenas de milhares de refugiados do Oriente Médio em campos de detenção em condições repugnantes (Leia também: “As lições políticas da traição do Syriza na Grécia”).

Enquanto apenas o CIQI havia alertado os trabalhadores que o Syriza trairia suas promessas, os grupos da pseudo-esquerda na Turquia e internacionalmente o promoveram com entusiasmo. O ÖDP, o partido irmão do Syriza na Turquia, declarou em 25 de janeiro de 2015, imediatamente após a vitória do Syriza: “Nós parabenizamos o Syriza. ... A vitória do Syriza significa o início da aventura do povo para uma nova ordem mundial.” Da mesma maneira, o nacionalista curdo HDP, que também é um partido irmão do Syriza, elogiou sua vitória e enfatizou sua “solidariedade” e “colaboração estratégica” com o Syriza.

Em uma declaração de 27 de janeiro de 2015, o EMEP saudou o Syriza: “O sucesso do Syriza como uma frente popular nas eleições gregas... deu esperança e coragem a todas as classes e povos oprimidos que lutam por pão e liberdade”.

O DİP – alinhado ao seu afiliado grego, o EEK – também apoiou inicialmente o Syriza e promoveu ilusões nele. Antes das eleições gregas de janeiro de 2015, o líder do DİP, Sungur Savran, escreveu um artigo intitulado “Armadilha do Syriza”, em que declarou: “Nós ficaremos muito felizes com a força que o campo da classe trabalhadora e os trabalhadores liderados pelo Syriza sairão das eleições”.

Nenhuma dessas organizações se preocupou em oferecer um balanço político de seu apoio a esse partido reacionário. O histórico anti-classe trabalhadora do Syriza e sua colaboração com o governo do AKP na política imigratória europeia contra os refugiados, que estão fugindo das guerras imperialistas em todo o Oriente Médio, constitui uma condenação indiscutível de suas políticas. Ao elogiar seus co-pensadores gregos, a pseudo-esquerda turca mostrou que está preparada para cometer crimes políticos parecidos contra a classe trabalhadora na Turquia.

Continua.