Peronismo retorna ao poder na Argentina em meio a enorme revolta social

Por Andrea Lobo
2 Novembro 2019

Publicado originalmente em 31 de outubro de 2019

A chapa de Alberto Fernández e da ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner venceu a eleição presidencial de domingo na Argentina com 48% dos votos em meio a uma crise econômica e social cada vez mais profunda.

Os círculos financeiros argentinos e internacionais estão em pânico, mas não pela chegada de Fernández ao poder. Ao invés disso, eles temem que o peronismo, a força preferida do governo burguês durante a maior parte do período pós-Segunda Guerra Mundial, se mostre incapaz de impedir que o país seja engolido pela onda de protestos sociais que varreram a região, do Haiti ao Equador e Chile.

“O peso está caindo – e também, ao que parece, o céu”, comentou o Washington Post. “As taxas de inflação e pobreza estão crescendo. As reservas nacionais estão encolhendo rapidamente. Em suma, a Argentina – em um terrível déjà vu de crises passadas – está sendo arremessada mais uma vez em direção ao abismo econômico”.

Segundo o Post, cujo dono é pessoa mais rica do mundo, Jeff Bezos, da Amazon, a campanha argentina foi marcada pelo “populismo, desigualdade e corrupção – a mesma mistura tóxica que agora está causando distúrbios na América do Sul”, e conclui que a derrota de Macri prova “que apenas a máquina peronista turbulenta e apoiada pelos sindicatos pode realmente governar a indisciplinada Argentina”.

O Wall Street Journal também mostrou-se aliviado pelos “amplos laços de Fernández com o movimento peronista, incluindo os sindicatos, grupos de extrema esquerda e governadores provinciais conservadores”. Por sua vez, a revista Forbes indicou que “dado o estado desastroso da economia argentina, Fernández começa a parecer um possível herói”.

Depois de uma crise econômica quase implacável e alta inflação desde 2014, na qual milhões foram jogados para baixo da linha da pobreza, enquanto bilhões de dólares foram investidos nos bolsos de exportadores e abutres financeiros, o próximo governo enfrenta um campo social minado.

Enquanto o Banco Central injetou dezenas de bilhões este ano nos mercados financeiros para estabilizar o peso, os pagamentos de dívidas acumuladas até agora nos próximos quatro anos superam os US$ 110 bilhões, o dobro dos gastos do governo no ano passado.

Um editorial do Financial Times alertou que não haverá “lua de mel para o novo líder da Argentina” por parte dos investidores e exigiu que Fernández “corteje investimentos estrangeiros” e se oponha a “grandes gastos”, ou seja, gastos sociais. “O fim do boom das commodities e a fraqueza da economia significam que não há dinheiro para essa generosidade”, alertou o Financial Times. A Forbes enfatizou, de maneira semelhante, “a importância de pagar o Fundo Monetário Internacional e se aproximar dos Estados Unidos e de Donald Trump".

Ao mesmo tempo, espera-se que a “lua de mel” com eleitores inquietos seja mais curta, se é que isso acontecerá, com a empresa de inteligência estadunidense Stratfor alertando: “A história mostrou que altos níveis de apoio popular na política argentina podem facilmente se transformar em descontentamento generalizado e, por sua vez, em distúrbios sociais”. Ela ainda questionou se Macri conseguirá “impedir que a economia e o futuro político de seu país entrem em colapso nas próximas semanas”.

Essas advertências econômicas se estendem globalmente, com o colunista do Financial Times, Jonathan Wheatley, perguntando recentemente se “investir em mercados emergentes ainda faz sentido?”. Para a Argentina, ele argumenta, “a grande questão é se [o país] voltará a crescer”.

As taxas de juros mais altas nas economias avançadas no ano passado levaram a uma saída maciça de capital dos chamados mercados emergentes, principalmente daqueles com grandes dívidas em moedas estrangeiras. No entanto, agora que as taxas de juros estão sendo reduzidas na Europa, Japão e EUA, os investimentos em mercados emergentes continuam a cair para o nível mais baixo desde os anos 90, segundo o Instituto de Finanças Internacionais, que se refere a um “fundamental” limite atingido.

Apesar de sua demagogia populista vazia, Alberto Fernández já deixou claro que imporá brutalmente as exigências do capital financeiro e do imperialismo enquanto procura mobilizar um aparato peronista dividido para suprimir a oposição social.

Durante seu discurso após o resultado eleitoral, ele prometeu “a Argentina solidária e igualitária com a qual todos sonham’, ao mesmo tempo que advertiu: “Espero que vocês entendam que a Argentina que está por vir precisa do esforço e do compromisso de todos”.

Notícias publicas em agosto indicaram que Fernández disse aos negociadores do FMI em particular: “vocês poderão nos cobrar e nos daremos bem”, enquanto sua equipe econômica prometeu, segundo o jornal financeiro argentino Ámbito Financiero, “a imposição de ajustes nos salários e pensões como um mecanismo para buscar equilíbrios fiscais e reduzir as pressões sobre os preços”.

Após as primárias de agosto sinalizarem que o presidente de direita Mauricio Macri perderia a eleição, a fuga de capitais aumentou, desencadeando uma greve nacional e protestos em massa. Na corda bamba, Macri respondeu cortando impostos regressivos e prometendo aumentar os gastos sociais, impondo um teto de US$ 10.000 para compras em dólares para limitar a fuga de capitais. Essa medida foi reduzida drasticamente para US$ 200 no último final de semana.

Desde então, a burocracia sindical liderada por peronistas fez de tudo para conter e canalizar os protestos por trás das eleições para “garantir uma transição estável” a Fernández. No entanto, ela não poderia ter impedido uma explosão social por tanto tempo sem a ajuda da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidade (FIT-U, na sigla em espanhol) e de seus próprios dirigentes sindicais.

A burocracia peronista e seus defensores estão usando chamados enganosos de “unidade” para fortalecer o apoio a Fernández. A “dissidente” Central dos Trabalhadores da Argentina (CTA) anunciou sua reintegração à Confederação Geral do Trabalho (CGT) no início de outubro. O Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) na FIT-U, que lidera vários sindicatos na CTA, respondeu denunciando o “verticalismo” da decisão, acrescentando que “o próprio Fernández levantou a necessidade da unidade do movimento operário organizado”. Isso, no entanto, foi apenas para insistir que “a unificação do movimento operário deve ser realizada nas ruas com uma greve nacional de 36 horas” contra Macri.

No início de setembro, professores em greve na província de Chubut, ao sul do país, que estavam bloqueando estradas e protestando contra o salário atrasado e a austeridade, foram agredidos fisicamente por mais de 100 capangas do Sindicato dos Trabalhadores de Petróleo e Gás liderados por Jorge “Loma” Ávila, que pertence à ala kirchnerista do peronismo. Esses ataques prenunciam a repressão que virá, mas também levantam graves paralelos históricos com os assassinatos realizados pelo peronismo contra trabalhadores de esquerda durante o governo de Isabel Martínez de Perón em 1974-76, abrindo caminho para a ditadura militar. No entanto, a FIT-U e outras forças da pseudo-esquerda continuaram canalizando seus chamados à mesma burocracia podre, alegando que os trabalhadores podem “recuperar” os sindicatos.

Essa perspectiva falsa e nacionalista foi utilizada durante o levante social de 1968-76 pelas mesmas forças políticas hoje da FIT-U, incluindo o Partido Obrero e os antecessores morenistas do PTS, para canalizar a classe trabalhadora por trás do peronismo, desarmar politicamente os trabalhadores e preparar o cenário para a instalação, em 1976, de uma junta militar apoiada pelos EUA que torturou e matou dezenas de milhares de trabalhadores e jovens radicalizados, jogando de maneira infame muitos deles ao mar de aviões.

Apesar de ter conseguido 1,7 milhão de votos, em sua maioria de jovens, e da entrada de novos partidos na coalizão eleitoral, a FIT-U perdeu 251.316 votos em relação a 2015. Durante os debates presidenciais e a campanha eleitoral, os políticos da pseudo-esquerda foram sombra da campanha de Fernández, avançando slogans populistas e burgueses como “a crise deve ser paga pelos capitalistas” e agindo como um grupo de pressão sobre os peronistas.