Arquiteto da política para o coronavírus da Suécia defendeu manter escolas abertas para atingir mais rapidamente a "imunidade de rebanho"

Por Jordan Shilton
9 Setembro 2020

Publicado originalmente em 21 de agosto de 2020

E-mails enviados pelo principal epidemiologista da Suécia, Anders Tegnell, em março confirmam que as autoridades do país adotaram conscientemente uma política assassina de "imunidade de rebanho" desde o início da pandemia, e que escolheram manter as escolas abertas especificamente para acelerar a propagação do coronavírus. As mensagens, obtidas através de um pedido de acesso à informação feito por um jornalista freelancer, não são apenas uma claro indiciamento da resposta criminosa das autoridades suecas à COVID-19, mas da elite governante em toda a Europa e América do Norte, que agora está adotando exatamente a mesma abordagem.

Anders Tegnell (crédito: Wikimedia Commons)

A liberação dos e-mails de Tegnell é particularmente oportuna, dado que há uma crescente oposição, formada por centenas de milhares de professores, alunos e pais nos Estados Unidos e na Europa, à reabertura assassina das escolas. Os políticos têm justificado essa decisão com mentiras sobre as crianças serem menos suscetíveis à infecção e menos propensas a espalhar o vírus para outras pessoas. No entanto, o que as correspondências de Tegnell revelam é que as autoridades sanitárias sabiam desde cedo que as escolas agiriam como locais perfeitos para que o vírus se espalhasse. Em vez de tentar evitar algo tão catastrófico, Tegnell celebrou o fato positivamente como uma forma de garantir que o coronavírus se espalharia o mais rápido possível.

As autoridades suecas rejeitaram a imposição de um lockdown quando o vírus chegou em março, permitiram que todas as empresas permanecessem abertas e mantiveram todos os alunos do ensino primário e fundamental em sala de aula durante toda a pandemia. O resultado foi uma taxa de mortalidade catastroficamente alta, que está entre as mais altas do mundo por número de habitantes. Com pouco mais de 10 milhões de habitantes, a Suécia registrou até hoje mais de 5.800 mortes e mais de 85.400 casos. Em comparação, a vizinha Finlândia, que implementou um lockdown mais rigoroso, registrou apenas 334 mortes até o momento. Mesmo considerando o fato de que a Suécia tem aproximadamente o dobro da população da Finlândia, a Suécia ainda registrou uma taxa de mortalidade mais de nove vezes maior do que a Finlândia.

Provavelmente no e-mail mais explosivo, escrito ao seu colega finlandês Mika Salminen em 13 de março, Tegnell tenta persuadir o vizinho da Suécia a adotar a mesma política nas escolas. "Há uma questão levantada que é manter as escolas abertas a fim de alcançar a imunidade de rebanho mais rapidamente", escreveu Tegnell em 14 de março para Salminen. Depois que Salminen respondeu afirmando que as autoridades finlandesas rejeitavam esta ideia porque as crianças espalhariam o vírus, Tegnell respondeu: "É verdade, mas provavelmente na maior parte entre elas mesmas já que o nosso sistema é extremamente estratificado por faixa etária".

Em comunicados diários à imprensa, Tegnell sempre negou que o objetivo de sua política era atingir a "imunidade de rebanho", deixando o vírus se espalhar sem controle. Os e-mails vazados confirmam que isso era uma mentira, com o objetivo de evitar a reação negativa do público que tal declaração explícita de uma política tão desumana teria desencadeado.

O apoio à "imunidade de rebanho" não foi apenas a posição defendida por Tegnell, mas também por setores significativos do establishment da política de saúde pública com os quais ele estava em contato. Tegnell colaborou estreitamente na resposta da Suécia ao coronavírus com seu antecessor Johan Giesecke, que foi epidemiologista do governo de 1995 a 2005. Giesecke escreveu em um e-mail para uma companhia de seguros sueca em março: "Acredito que o vírus vai varrer como uma tempestade pela Suécia e infectar basicamente todo mundo em um ou dois meses. Acredito que milhares já estejam infectados na Suécia... tudo chegará ao fim quando tantos já tiverem sido infectados e ficado, portanto, imunes que o vírus não tenha para onde ir (a chamada imunidade do rebanho?)".

Em um e-mail posterior enviado a Tegnell, Giesecke reclamou que as escolas de ensino médio e universidades haviam sido fechadas. "Acho que devemos flexibilizar o fechamento das escolas de ensino médio e universidades após a Páscoa. Elas não têm papel epidemiológico e daria um sinal de que as coisas estão melhorando", escreveu ele. Por fim, esta política foi implementada em junho.

A decisão de Tegnell de deixar as escolas abertas foi acompanhada por um método desastroso de testagem. As autoridades suecas inicialmente se recusaram a testar todas as pessoas assintomáticas, além de não testaram um grande número de trabalhadores que estavam na linha de frente, especialmente nos cuidados aos idosos. Isto tornou virtualmente impossível rastrear surtos de coronavírus com rapidez suficiente nestas instalações, que se tornaram campos de extermínio, já que trabalhadores mal remunerados e empregados em regimes precários, forçados a trabalhar em vários locais para pagar as contas, levaram o vírus com eles a toda parte.

Para garantir que o sistema de saúde não entrasse em colapso total com a quantidade de pacientes com COVID-19, as autoridades de Estocolmo asseguraram que pessoas com mais de 80 anos tivessem na pŕatica os cuidados necessários negados. Vários relatos denunciaram que residentes idosos estavam sendo deixados para morrer em lares sem que lhes fosse oferecida uma transferência hospitalar.

Se os governos de todas as linhas políticas na Europa e na América do Norte atingirem seus objetivos, esses exemplos terríveis serão replicados em uma escala muito maior nas próximas semanas e meses.

Não há dúvida de que discussões tão assustadoras como as travadas por Tegnell, que resultaram em decisões políticas que acabaram condenando milhares de pessoas a uma morte precoce, aconteceram no interior da classe dominante de praticamente todos os países. Desde a declaração informal do primeiro-ministro britânico Boris Johnson, em março, de que seria melhor simplesmente "ser corajoso, pegar de uma vez o vírus e permitir que a doença, livremente, contamine toda a população", até a afirmação aberta da chanceler alemã Angela Merkel, em março, de que 60 a 70 por cento da população seria inevitavelmente infectada, e o abandono pelo Presidente Trump de qualquer esforço para conter a pandemia nos Estados Unidos, as elites governantes europeias e norte-americanas adotaram na prática a estratégia de "imunidade de rebanho", iniciada por Tegnell na Suécia.

Os governos da Europa e dos Estados Unidos só implementaram, com relutância, medidas de bloqueio no final de março, principalmente devido à crescente pressão de suas populações. Isto foi visto mais claramente através das paralisações selvagens em fábricas de automóveis em toda a América do Norte, e das greves de trabalhadores da indústria automobilística e manufatureira na Europa. Estudos científicos sérios demonstraram que estes lockdowns, depois de terem sido efetivamente impostos à elite dominante pela oposição representada pela classe trabalhadora, salvaram milhões de vidas. Um estudo do Imperial College de Londres estimou que 3,1 milhões de vidas foram salvas em 11 países europeus.

Entretanto, assim que os governos saquearam os tesouros estatais para transferir trilhões de dólares e euros para os cofres das grandes corporações e bancos para garantir que pudessem continuar acumulando grandes quantidades de riqueza, foi imposta uma política desastrosa de reabertura prematura da economia. Como resultado, a pandemia está atualmente se espalhando a um ritmo recorde em todo o mundo, com o número de mortos aproximando-se rapidamente de 800.000.

Nas três semanas desde que as escolas começaram a abrir nos Estados Unidos, durante a semana de 27 de julho, pelo menos 2.500 professores, estudantes e outros trabalhadores da educação foram infectados pelo vírus. Foram registrados surtos em escolas de todo o país e apenas seis estados ainda não registraram um surto.

Na Alemanha, os governos estaduais estão demonstrando total desprezo pela vida dos professores e alunos enquanto avançam com a reabertura total das escolas, mesmo quando novas infecções estão atingindo seu nível mais alto desde abril. Mais de 50 infecções foram registradas em escolas de apenas um estado, Hamburgo, nas duas semanas desde a reabertura das escolas. No estado vizinho, Schleswig-Holstein, o governo estadual rejeitou quase todas as 2.000 solicitações de professores com condições médicas preexistentes para serem autorizados a trabalhar de casa. Todos os governos estaduais abandonaram qualquer esforço para implementar o distanciamento social.

Nenhum país tem sequer tentando fornecer testagem adequada e rastreamento de contágios para professores e alunos, apesar do fato de que qualquer observação cuidadosa das condições perigosas que eles enfrentam diariamente em prédios escolares degradados concluiria que todos eles estão correndo um risco maior de serem infectados.

Embora não falte caos e incompetência dos governos de todos os países na sua campanha homicida de volta às aulas, uma política deliberada de “imunidade de rebanho” por infecção está sendo adotada muito conscientemente. Como Tegnell e seus colegas, os governos de praticamente todos os países calculam que deixar o vírus fazer um estrago em toda a população como uma "tempestade" é a maneira mais eficaz de proteger os interesses das grandes empresas e da elite financeira. O retorno das crianças à escola é visto como essencial para que os pais possam ser forçados a voltar ao trabalho para produzir lucros para os acionistas e os super-ricos. E se professores, alunos e pais morrerem do vírus, especialmente aqueles com condições de saúde preexistentes, a elite governante vê isso como um bem positivo, pois facilitará o corte de gastos na prestação de serviços de saúde.

Uma nova etapa na catástrofe da COVID-19 só pode ser evitada através da intervenção política consciente da classe trabalhadora para parar a tentativa imprudente de volta às aulas. Isto exige acima de tudo a construção de comitês de base independentes em cada escola, universidade e bairro para preparar uma greve geral para deter a reabertura das escolas e exigir aumento no financiamento da educação pública para garantir que crianças e jovens possam receber uma educação decente durante a pandemia. Uma parte fundamental desta luta deve ser a responsabilização de autoridades do governo, como Tegnell, que abusaram de suas credenciais médicas e funções dentro do aparelho estatal capitalista para implementar uma política homicida que ameaça a vida de milhões de trabalhadores internacionalmente.