O último ano de Trotsky

Parte três

Por David North
22 Setembro 2020

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Publicado originalmente em 25 de agosto de 2020

Após a conclusão de seu Manifesto para a Conferência de Emergência da Quarta Internacional, o cronograma persistente e penoso de Trotsky envolvendo seus projetos escritos foi interrompido por um evento que ele havia antecipado há muito tempo, embora sua data exata não pudesse ter sido prevista. Nas primeiras horas da manhã de 24 de maio de 1940, o pintor e fanático stalinista mexicano David Alfaro Siqueiros liderou um esquadrão de assassinos, armado com metralhadoras Thompson de calibre 45, fuzis automáticos de calibre 30 e bombas incendiárias, em um atentado contra o líder da Quarta Internacional.

David Alfaro Siqueiros

Os assassinos não tiveram que invadir a vila na Avenida Viena. O guarda de plantão, Robert Sheldon Harte, destrancou o portão de ferro e permitiu a entrada dos assassinos. Os pistoleiros estavam claramente familiarizados com todo a planta do complexo. Um grupo se dirigiu ao local da vila que abrigava o quarto de Trotsky e de sua esposa Natalia e o de seu neto Seva. Outro grupo se dirigiu rapidamente para a extremidade oposta do pátio, do lado de fora da parte do complexo onde os guardas de Trotsky estavam alojados. Enquanto o segundo grupo de pistoleiros disparava contra os quartos dos guardas, encurralando-os e deixando-os sem reação, a equipe principal de assassinos entrou no quarto de Trotsky.

O quarto estava escuro, e os assassinos atiraram em todas as direções. Trotsky havia tomado um comprimido para dormir e estava grogue quando acordou com os tiros. Natalia respondeu mais rapidamente e salvou a vida de Trotsky. Como ele lembrou em “Stalin Busca Minha Morte”, um relato do ataque escrito na primeira semana de junho de 1940:

Minha esposa já havia saltado de sua cama. O tiroteio continuou incessantemente. Minha esposa mais tarde me disse que ela me ajudou a ir para o chão, empurrando-me para o espaço entre a cama e a parede. Isso era bem real. Ela tinha ficado de pé, ao lado da parede, como se me protegesse com seu corpo. Mas por meio de sussurros e gestos eu a convenci a deitar no chão. Os tiros vinham de todos os lados, era difícil dizer exatamente de onde. Em certo momento, minha esposa, como ela me disse mais tarde, foi capaz de distinguir claramente os tiros de uma arma; consequentemente, os tiros estavam vindo do quarto, embora não pudéssemos ver ninguém. Minha impressão é que ao todo foram disparados cerca de duzentos tiros, dos quais cerca de cem foram parar bem ao nosso lado. Os estilhaços de vidro das janelas e as lascas das paredes voaram em todas as direções. Mais tarde, senti que minha perna direita havia sido ligeiramente ferida em dois lugares. [1]

Enquanto os pistoleiros se retiravam do quarto, Trotsky ouviu seu neto de 14 anos, Seva, gritar. Trotsky recordou este momento terrível:

A voz da criança na escuridão sob os tiros continua sendo a lembrança mais trágica daquela noite. O menino – após o primeiro tiro ter atingido sua cama na diagonal, como evidenciado pelas marcas deixadas na porta – se arrastou para debaixo da cama. Um dos agressores, aparentemente em pânico, atirou na cama, a bala passou pelo colchão, atingiu nosso neto no dedão do pé até e acabou incrustrada no chão. Os agressores jogaram duas bombas incendiárias e deixaram o quarto de nosso neto. Chorando “Avô!” ele correu após eles irem para o pátio, deixando um rastro de sangue e, sob tiros, entrou no quarto de um dos guardas. [2]

Trotsky atribuiu sua sobrevivência a um “afortunado acidente”.

As camas estavam sob fogo cruzado. Talvez os agressores tenham tido medo de atingir uns aos outros e instintivamente dispararam mais alto ou mais baixo do que deveriam. Mas isso é apenas uma conjectura psicológica. Também é possível que minha esposa e eu tenhamos sido ajudados por não termos perdido a cabeça, sem correr feito loucos pelo quarto, sem gritar ou pedir ajuda quando era inútil, não atirando quando não fazia sentido, mas permanecendo em silêncio no chão fingindo estarmos mortos. [3]

O esquadrão da morte escapou, não percebendo que sua missão tinha fracassado. Trotsky saiu de seu quarto e entrou no pátio, de onde a fumaça dos tiros ainda estava se dissipando. Ele estava procurando pelos guardas, que ainda estavam em seus quartos. Nenhum deles havia sido treinado para reagir a uma agressão dessa natureza. Os esforços para atirar de volta tinham sido pontuais e sem efeito. A metralhadora de Harold Robins travou nos primeiros tiros. Ele descobriu mais tarde que a arma havia sido carregada com munição errada. Robins lembrou que o comportamento de Trotsky era incrivelmente calmo. Tendo experimentado numerosas batalhas durante a selvagem Guerra Civil Russa de 1918-21, o ex-comandante supremo do Exército Vermelho estava familiarizado com tiros. Mas Robins também percebeu que Trotsky estava desapontado com a resposta totalmente ineficaz de seus guardas. [4]

Os guardas descobriram que um grupo da polícia mexicana, que havia sido designado para um posto fora da vila, havia sido amarrado. Sob as instruções de Trotsky, eles foram imediatamente libertados. Uma descoberta mais perturbadora foi que Robert Sheldon Harte tinha partido com os agressores, o que imediatamente levantou suspeitas de que ele estava envolvido no complô. Na ausência de provas definitivas do envolvimento de Harte, Trotsky considerou-o inocente – uma posição que pareceu ter sido confirmada quando o corpo do guarda foi descoberto várias semanas depois.

Por razões que podem ser bem compreendidas, Trotsky estava relutante, imediatamente após o atentado, em acusar Harte. Mas ele não excluiu a possibilidade de que Harte tivesse agido em conluio com a GPU. “Apesar de todas as precauções”, escreveu Trotsky, “é, claramente, impossível considerar como absolutamente excluída a possibilidade de que um agente isolado da GPU pudesse se infiltrar na guarda”. [5] Ele observou que Harte, devido ao seu desaparecimento, era suspeito. Mas, com base nas provas então disponíveis, Trotsky não tinha condições de afirmar que Harte era culpado. Ele aceitou a possibilidade de que novas informações pudessem exigir uma reavaliação do papel de Harte. Qualquer que fosse o veredicto final, ele continuou, “Se, ao contrário de todas as minhas suposições, tal participação fosse confirmada, então não mudaria nada de essencial no caráter do atentado”. Com a ajuda de um dos membros da guarda ou sem esta ajuda, a GPU organizou um atentado para me matar e queimar meus arquivos”. [6]

Trotsky confiou na escolha dos guardas pelo Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP). “Todos eles foram enviados para cá após uma seleção especial por meus experientes e velhos amigos”. [7] O que Trotsky não sabia é que o SWP não examinou seriamente os indivíduos que enviou dos Estados Unidos para Coyoacán. No caso de Harte, o nova-iorquino de 25 anos não tinha praticamente nenhuma história política no SWP. Após o desaparecimento do filho, seu pai, Jesse Harte, um rico empresário e amigo de J. Edgar Hoover, voou para o México. Durante as reuniões com a polícia mexicana, o velho Harte informou-lhes que uma foto de Stalin havia sido encontrada no apartamento de seu filho em Nova York. Quando esta informação foi divulgada à imprensa mais tarde, Trotsky enviou a Jesse Harte um telegrama, pedindo a confirmação dessa informação. Harte respondeu negando de maneira categórica e desonesta: “DEFINITIVAMENTE DETERMINADA FOTO DE STALIN NÃO ENCONTRADA NO QUARTO DE SHELDON”. [8]

Robert Sheldon Harte

Como parte da investigação sobre o assassinato de Trotsky, iniciada em 1975, o Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) analisou todas as provas relacionadas ao papel de Sheldon Harte no ataque de 24 de maio. O CIQI concluiu que Harte, de fato, participou do complô. Esta descoberta foi denunciada pelo Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP), liderado por Joseph Hansen, e seus aliados em organizações pablistas anti-trotskistas em todo o mundo, que se opunham amargamente à exposição de stalinistas e outros agentes policiais dentro da Quarta Internacional. Eles denunciaram a investigação sobre o assassinato de Trotsky como uma “provocação”. O CIQI foi acusado em uma declaração pública emitida pelo SWP e seus aliados internacionais de “desonrar a memória de Robert Sheldon Harte”. [9]

A publicação dos arquivos da GPU após a dissolução da União Soviética em 1991 revelou definitivamente que Harte era um agente stalinista, que desempenhou um papel fundamental no atentado de 24 de maio contra a vida de Trotsky. Vários dias após a tentativa de assassinato, a GPU recompensou Harte por sua traição, assassinando-o. Desprezando o jovem traidor, Siqueiros e seus cúmplices viam Harte como um indivíduo não confiável que poderia acabar confessando se fosse eventualmente interrogado pela polícia. Enquanto Harte dormia, deram um tiro em sua cabeça, jogaram seu corpo em um buraco e o cobriram com cal. Os restos mortais decompostos de Hart foram descobertos várias semanas depois.

Apesar do fato óbvio de que o atentado contra a vida de Trotsky havia sido realizado por ordem de Stalin, os mercenários da GPU atuando no Partido Comunista do México, os sindicatos e jornais iniciaram uma campanha para desorientar a opinião pública, alegando que o ataque de 24 de maio foi na verdade um “auto-atentado”, iniciado pelo próprio Trotsky. Em dois grandes artigos, “Stalin Busca Minha Morte” e “O Comintern e a GPU” – este último concluído em 17 de agosto de 1940, apenas três dias antes do segundo e bem-sucedido atentado realizado por Ramón Mercader – Trotsky submeteu as mentiras stalinistas a uma refutação devastadora.

Em “O Comintern e a GPU”, Trotsky expôs o absurdo da afirmação de que ele teria ou poderia ter orquestrado o ataque de 24 de maio.

Quais objetivos eu poderia perseguir para me aventurar em um empreendimento tão monstruoso, repugnante e perigoso? Ninguém o explicou até hoje. É insinuado que eu queria denegrir Stalin e sua GPU. Mas será que outro ataque acrescentaria alguma coisa à reputação de um homem que destruiu toda a velha guarda do Partido Bolchevique? Diz-se que desejo provar a existência da “Quinta Coluna”. Por quê? Para quê? Além disso, os agentes da GPU já são suficientes para realizarem um atentado; não há necessidade da misteriosa “Quinta Coluna”. Diz-se que eu desejava criar dificuldades para o governo mexicano. Que motivos possíveis eu poderia ter para criar dificuldades para o único governo que tem sido hospitaleiro comigo? Diz-se que eu queria provocar uma guerra entre os Estados Unidos e o México. Mas essa explicação pertence completamente ao campo do delírio. Para provocar tal guerra, teria sido, de qualquer forma, muito mais conveniente ter organizado um ataque a um embaixador dos EUA ou a magnatas do petróleo e não a um revolucionário Bolchevique, estranho e detestável para os círculos imperialistas.

Quando Stalin planeja uma tentativa de me assassinar, o significado de suas ações é claro: ele quer destruir seu inimigo número um. Stalin não corre riscos; ele age a longa distância. Pelo contrário, ao organizar um “auto-atentado” tenho que assumir pessoalmente a responsabilidade por tal empreendimento; arrisco meu próprio destino, o destino de minha família, minha reputação política e a reputação do movimento que sirvo. O que eu ganharia com isso?

Mas mesmo que se permitisse o impossível, ou seja, que depois de renunciar à causa de toda a minha vida, e pisotear o bom senso e meus próprios interesses vitais, eu decidisse organizar um “auto-atentado” em prol de algum objetivo desconhecido, então ainda resta a seguinte questão: Onde e como eu consegui vinte assassinos? Como dei a eles uniformes policiais? Como eu os armei? Como equipei-os com todas as coisas necessárias? etc. etc. Em outras palavras, como é que um homem, que vive quase completamente isolado do mundo exterior, conseguiu realizar um empreendimento concebível apenas para um poderoso aparato? Devo confessar que me sinto incomodado em submeter à crítica uma ideia que não merece ser criticada. [10]

Em sua análise sobre a preparação política da GPU para o atentado, Trotsky forneceu novas provas de sua extraordinária perspicácia. Ele chamou a atenção para o Congresso Extraordinário do Partido Comunista do México, que havia sido realizado em março de 1940. O tema principal que dominou o congresso foi a necessidade de exterminar o trotskismo. Trotsky supôs que a decisão do congresso de expulsar Hernán Laborde, secretário geral do Partido Comunista do México, e Valentín Campaña, figura de destaque nos sindicatos, estava ligada à necessidade de retirar dos cargos de autoridade líderes individuais que estavam relutantes em envolver o partido em um plano de assassinato politicamente perigoso e impopular. Trotsky enfatizou que a iniciativa para essa remoção veio claramente de fora da organização, ou seja, da GPU agindo de acordo com as diretrizes do regime do Kremlin. Explicando que a implementação das violentas mudanças organizacionais no congresso teria exigido vários meses de preparação, Trotsky afirmou que a ordem para a tentativa de assassinato tinha chegado de Moscou em novembro ou dezembro de 1939.

A análise de Trotsky sobre os prolongados preparativos para o atentado de 24 de maio e o significado do Congresso Extraordinário do PC mexicano foi corroborada por um estudo recente, que demonstrou que o planejamento do assassinato de Trotsky começou na primavera de 1939. Laborde foi abordado por um agente da GPU que estava atuando sob a cobertura do Comintern. A missão do agente “era buscar a cooperação do Secretariado do PCM nos planos para eliminar Trotsky”. Laborde supostamente consultou Campa e Rafael Carrillo [outra liderança do PC mexicano] e chegou à conclusão que não só colocaria em risco as relações do PCM com o governo Cárdenas, mas que, de qualquer forma, era desnecessário, uma vez que Trotsky era uma força gasta”. [11]

A GPU não concordou com a avaliação de Laborde e Campa em relação à influência política de Trotsky. Laborde, Campa e Carrillo viajaram para Nova York em maio de 1939 para buscar o apoio de Earl Browder, líder do Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA), contra o atentado a Trotsky. No entanto, não foram bem-sucedidos. A decisão de convocar um congresso extraordinário foi tomada em setembro de 1939 na plenária do Comitê Nacional do PC mexicano. Segundo o acadêmico Barry Carr, o CPUSA e o Comintern estavam preocupados “com as deficiências da campanha anti-Trotsky do partido mexicano e com sua suposta defesa superficial da política externa soviética, particularmente quanto à decisão de intervir militarmente na Finlândia em novembro de 1939”. [12]

A primeira convocação pública para o Congresso Extraordinário foi feita em novembro. Delegados vindos da Europa, na verdade agentes da GPU, começaram a chegar ao México. Entre eles estava Vittorio Codovilla, que estava na Espanha. Carr escreve que os enviados do Comintern estavam insatisfeitos com os preparativos e a agenda do congresso previsto.

Codovilla sugeriu uma reformulação completa da agenda e se concentrar em um ponto essencial “para não distrair a atenção dos delegados”. Ele passou a delinear a estrutura da agenda reformulada, incluindo um novo item sobre a luta contra os inimigos do povo (sendo o tema principal a luta contra o trotskismo...)

Os enviados não limitaram suas atividades a sugestões sobre o formato dos documentos preliminares do Congresso Extraordinário. Eles também pediram que o partido realizasse uma “limpeza na casa” antes do Congresso, expulsando os trotskistas... os serviços dos comunistas espanhóis exilados foram oferecidos para essa última tarefa. [13]

Stalin via Trotsky como a mais grave ameaça política ao seu regime. Ele chegou a considerar a decisão de deportar Trotsky da União Soviética em 1929 como seu maior erro político. Stalin havia considerado que Trotsky, isolado em um país estrangeiro, seria incapaz de montar uma séria oposição ao Kremlin. Stalin estava enganado. Como Trotsky observou, “os acontecimentos demonstraram, no entanto, que é possível participar da vida política sem possuir nem um aparato nem recursos materiais”. [14] O biógrafo de Stalin, Dmitri Volkogonov, que teve acesso aos documentos privados de Stalin, escreveu que o ditador estava obcecado pelo “fantasma de Trotsky”.

Ele [Stalin] pensou em Trotsky quando teve que sentar-se e ouvir Molotov, Kaganovich, Khrushchev e Zhdanov [membros do Politburo stalinista]. Trotsky era de um calibre intelectualmente diferente, com seu domínio de organização e seus talentos como orador e escritor. Em todos os aspectos ele era muito superior a este bando de burocratas, mas também era superior a Stalin e Stalin sabia disso. “Como eu poderia ter deixado escapar um inimigo assim?”, ele quase lamentou. Em uma ocasião, ele confessou ao seu pequeno círculo que este tinha sido um dos maiores erros de sua vida...

A ideia de que Trotsky estava falando não apenas por si mesmo, mas por todos os seus apoiadores clandestinos e os oposicionistas dentro da URSS, era particularmente dolorosa para Stalin. Quando ele leu os trabalhos de Trotsky, tais como A Escola Stalinista de Falsificação, Uma Carta Aberta aos Membros do Partido Bolchevique, ou O Termidor Stalinista, o Líder quase perdeu seu autocontrole. [15]

O ódio de Stalin por Trotsky não era de caráter puramente, ou mesmo predominantemente, pessoal. As dimensões homicidas de sua raiva eram a expressão concentrada da hostilidade que a burocracia dominante, como casta privilegiada, sentia contra o seu opositor mais implacável. Como Trotsky explicou em “O Comintern e a GPU”:

O ódio da oligarquia de Moscou contra mim é gerado por sua profunda convicção de que eu a “traí”. Essa acusação tem um significado histórico próprio. A burocracia soviética não elevou Stalin à liderança de uma só vez e sem vacilação. Até 1924, Stalin era desconhecido mesmo entre os círculos partidários mais amplos, muito mais entre a população, e, como já disse, ele não gozava de popularidade nos escalões da própria burocracia. A nova camada dominante tinha esperanças de que eu assumiria a defesa de seus privilégios. Não foram poucos os esforços nesse sentido. Somente depois que a burocracia se convenceu de que eu não pretendia defender seus interesses contra os trabalhadores, mas, pelo contrário, defender os interesses dos trabalhadores contra a nova aristocracia, foi feita a guinada completa para Stalin, e eu fui proclamado “traidor”. Este epíteto na boca da casta privilegiada constitui uma prova de minha lealdade à causa da classe trabalhadora. Não é por acaso que 90% dos revolucionários que construíram o Partido Bolchevique, fizeram a Revolução de Outubro, criaram o Estado Soviético e o Exército Vermelho e lideraram a guerra civil foram destruídos como “traidores” no decorrer dos últimos doze anos. Por outro lado, o aparato stalinista levou a seus escalões, durante este período, pessoas cuja esmagadora maioria se encontrava do outro lado das barricadas nos anos da revolução. [16]

A degeneração política e a decadência moral não se limitaram ao Partido Comunista Soviético. O mesmo processo traiçoeiro era observado em todo o Comintern, cujas principais lideranças em todos os países haviam sido substituídas de acordo com as exigências políticas e ideológicas do Kremlin. Os líderes nacionais foram escolhidos não a partir de sua determinação revolucionária, inteligência política e integridade pessoal. O que o Kremlin procurou nos indivíduos que selecionou como líderes de partidos nacionais foi a covardia, o oportunismo e a vontade de receber ordens. Trotsky estava muito familiarizado com o tipo preferido por Stalin:

Faltando estatura independente, ideias independentes, influência independente, os líderes das seções do Comintern estão muito bem cientes de que sua posição e reputação ficam de pé e caem com a posição e reputação do Kremlin. No sentido material, como será mostrado mais tarde, eles vivem das esmolas da GPU. Sua luta pela existência se resolve, portanto, em uma raivosa defesa do Kremlin contra toda e qualquer oposição. Eles não podem deixar de considerar a correção e, portanto, o perigo da crítica que vem dos chamados trotskistas. Mas isto só redobra seu ódio a mim e aos meus companheiros. Como seus mestres do Kremlin, os líderes dos partidos comunistas são incapazes de criticar as ideias reais da Quarta Internacional e são forçados a recorrer a falsificações e tramas que são exportadas de Moscou em quantidades ilimitadas. Não há nada de “nacional” na conduta dos stalinistas mexicanos; eles apenas traduzem para o espanhol as políticas de Stalin e as ordens da GPU. [17]

Trotsky documentou a corrupção sistemática das seções do Comintern promovida pela GPU. Os subornos, apoiados por ameaças, substituíram os argumentos políticos como meio de garantir a implementação das políticas desejadas pelo Kremlin.

Leon Trotsky

O início da Segunda Guerra Mundial intensificou o medo de Stalin por Trotsky. Apesar da esperança desesperada de Stalin de que Hitler aderisse ao Pacto de Não Agressão e se abstivesse de invadir a União Soviética, ele certamente percebeu que, apesar de todas as concessões que havia feito a Hitler, o perigo de uma invasão alemã era muito real. Se e quando isso ocorresse, as consequências desastrosas das políticas de Stalin – que incluíam o lançamento de um expurgo sangrento de militares em 1937-38 que envolveu a aniquilação física dos generais mais experientes e capazes do Exército Vermelho e aproximadamente três quartos de seu corpo de oficiais – deixariam o regime totalmente desacreditado. As derrotas sofridas pelos exércitos czaristas durante a Primeira Guerra Mundial haviam sido um fator importante na eclosão da Revolução Russa apenas pouco mais de 20 anos antes. O czar, que havia assumido o comando supremo dos militares, foi varrido do poder. Não existia, portanto, a possibilidade de que uma nova guerra resultasse em uma revolta dentro da União Soviética, especialmente se o início da guerra fosse seguido de derrotas causadas pela incompetência do regime? Stalin certamente conhecia o ensaio escrito em 1937 pelo célebre escritor e revolucionário Victor Serge. Apesar de todas as perseguições, Serge escreveu, o “Velho” – como Trotsky era carinhosamente chamado por tantos de seus seguidores – não havia sido esquecido pelo povo soviético.

Enquanto o Velho viver, não haverá segurança para a burocracia triunfante. Uma mente da revolução de outubro permanece, e essa é a mente de um verdadeiro líder. No primeiro embate, as massas se voltarão para ele. No terceiro mês de uma guerra, quando as dificuldades começarem, nada impedirá que toda a nação se volte para o “organizador da vitória”. [18]

Havia ainda outra razão pela qual Stalin tentou matar Trotsky. O ditador do Kremlin sabia que Trotsky estava trabalhando duro em uma biografia de Stalin. Um dos objetivos do ataque de 24 de maio tinha sido destruir os arquivos de Trotsky. Stalin certamente achava que entre os documentos de Trotsky estava o manuscrito da biografia, que o ataque de 24 de maio não conseguiu localizar e destruir. A única maneira de impedir a conclusão da biografia era assassinar seu autor. Stalin temia as consequências da exposição da obra de Trotsky sobre seus antecedentes, sua mediocridade política, seu papel menor na história do partido bolchevique antes de 1917 e durante a Revolução, sua incompetência durante a Guerra Civil e, sobretudo, o padrão de deslealdade e traição que levou Lenin a concluir no início de 1923 que Stalin tinha que ser afastado do cargo de secretário geral. A determinação de Stalin em interromper a conclusão e a publicação da biografia foi certamente um fator importante no período muito curto de três meses – que decorreu entre o atentado malsucedido de 24 de maio e o assassinato realizado por Ramón Mercader em 20 de agosto de 1940.

O assassinato, de fato, impediu a conclusão da biografia. Mas Trotsky deixou um grande manuscrito que forneceu uma extraordinária visão da personalidade e da evolução política de Stalin. Só em 1946 que a biografia de Trotsky foi publicada; mas esta versão foi incompetentemente organizada, misturando capítulos completos com fragmentos de notas e passagens que não tinham sido claramente integrados por Trotsky na narrativa biográfica. O tradutor, Charles Malamuth, foi incompetente. Já em 1939, a partir do que ele havia visto dos esforços iniciais de Malamuth para traduzir partes do manuscrito, Trotsky reclamou: “Malamuth parece ter pelo menos três características: ele não sabe russo; ele não sabe inglês; e é tremendamente pretensioso”. [19]

Pior ainda, após o assassinato, Malamuth teve muita liberdade com o texto de Trotsky, inserindo arbitrariamente suas próprias palavras e frases, impondo intencionalmente sobre a biografia opiniões que contradiziam diretamente as do autor. As interpolações de Malamuth frequentemente se estendem por várias páginas, diluindo e distorcendo assim a narrativa como foi escrita por Trotsky. Esta foi a única versão da biografia à qual o público em geral teve acesso por aproximadamente 70 anos. Em 2016, uma nova versão da biografia foi publicada, com uma abordagem muito mais consciente da tradução e organização do manuscrito e de fragmentos antes não assimilados. [20]

No volume final de sua trilogia de Trotsky, Isaac Deutscher escreveu que a biografia de Stalin – mesmo que o autor tivesse vivido para completá-la – “provavelmente teria permanecido sua obra mais fraca”. Essa crítica, que surgiu das objeções políticas de Deutscher à avaliação inequívoca de Trotsky do stalinismo como contrarrevolucionário, está profundamente errada. Apesar de a biografia não ter sido acabada, tanto em termos de seu conteúdo como da evidente ausência de um processo de edição final que teria permitido ao grande escritor transmitir todo o alcance de sua arte ao manuscrito, Stalin de Trotsky é uma obra-prima. Inúmeras biografias de Stalin foram escritas, incluindo uma de Deutscher que apresentou Stalin como um gigante político. Nenhuma destas obras se aproxima da biografia de Trotsky em termos de profundidade política, visão psicológica e brilhantismo literário.

A biografia de Trotsky é acompanhada de um conhecimento inigualável do ambiente econômico, social, cultural e político no qual o movimento revolucionário dos trabalhadores se desenvolveu em todo o vasto império russo. A recriação de Trotsky da personalidade de Stalin não é uma caricatura. A persona de Djughashvili-Stalin, como demonstra Trotsky, foi moldada pelas condições retrógradas de sua criação familiar e pelo ambiente cultural e político em que suas primeiras atividades políticas se desenvolveram.

Este não é o lugar para uma revisão abrangente e detalhada deste trabalho extraordinário. Mas o único elemento crítico da biografia para o qual se deve chamar a atenção é a preocupação de Trotsky com as condições objetivas, e os processos subjetivos que as refletiam, que tornaram possível a ascensão de Stalin ao poder supremo. Trotsky chama repetidamente a atenção para a mudança na cultura social do Partido Bolchevique após o fim da Guerra Civil. O partido que liderou a revolução deu um exemplo heroico “de tal solidariedade, tal ressurgimento idealista, tal devoção, tal abnegação”, que quase não tem comparação com qualquer outro movimento na história. [21]

Dentro do Partido Bolchevique houve debates internos, conflitos, em uma palavra, todas aquelas coisas que são uma parte natural da existência humana. Quanto aos membros do Comitê Central, eles também eram apenas humanos, mas uma época especial os elevou acima de si mesmos. Sem idealizar nada, e sem fechar os olhos para as fraquezas humanas, podemos, no entanto, dizer que, naqueles anos, o ar que se respirava no partido era o dos picos das montanhas. [22]

Mas a atmosfera mudou após do fim da Guerra Civil, à medida que elementos novos, não testados e socialmente estranhos ingressavam no partido. Houve esforços episódicos para proteger o partido contra a chegada de carreiristas. Mas as condições objetivas estavam se movendo em uma direção desfavorável.

Após a Guerra Civil, e especialmente após a derrota da revolução na Alemanha, os bolcheviques já não se sentiam mais como guerreiros em marcha. Ao mesmo tempo, o Partido passou do período revolucionário para o sedentário. Não foram poucos os casamentos que aconteceram durante os anos da Guerra Civil. No final dela, os casais tiveram filhos. A questão dos apartamentos, da mobília, da família, começou a assumir uma importância cada vez maior. Os laços de solidariedade revolucionária que haviam superado as dificuldades em geral foram substituídos em grande parte por laços de dependência burocrática e material. Antes, era possível vencer somente através de ideais revolucionários. Agora, muitas pessoas começaram a vencer com posições e privilégios materiais. [23]

Trotsky não estava defendendo um ascetismo perpétuo e inalcançável longe de todas as preocupações pessoais e materiais. Ele mesmo teve quatro filhos. Ele estava, ao contrário, explicando como um ambiente social conservador se desenvolveu gradualmente dentro do partido e interagiu com processos socioeconômicos de longo alcance dentro do país, associados com o renascimento da Nova Política Econômica de um mercado capitalista. A importância renovada da iniciativa privada no campo criou uma súbita aceitação e até mesmo um incentivo à desigualdade social. A ênfase colocada por Trotsky e seus apoiadores da Oposição de Esquerda sobre a igualdade foi atacada. Stalin adaptou-se e explorou este estado de espírito. A igualdade “foi proclamada pela burocracia como um preconceito pequeno-burguês”. A animosidade à igualdade foi acompanhada por uma crescente hostilidade à perspectiva de uma revolução permanente:

A teoria do “socialismo em um só país” foi defendida naquele período por um bloco da burocracia com a pequena burguesia agrária e urbana. A luta contra a igualdade uniu a burocracia mais fortemente do que nunca, não apenas à pequena burguesia agrária e urbana, mas também à aristocracia operária. A desigualdade tornou-se a base social comum, a fonte e a razão de ser destes aliados. Assim, os laços econômicos e políticos uniram a burocracia e a pequena burguesia de 1923 a 1928. [24]

A ascensão de Stalin ao poder estava ligada à cristalização do aparato burocrático e sua crescente consciência de seus interesses específicos. “Neste sentido, Stalin apresenta um fenômeno completamente excepcional. Ele não é nem um pensador, nem um escritor, nem um orador. Ele assumiu o poder antes que as massas tivessem aprendido a discernir sua figura de outros líderes nas marchas comemorativas da Praça Vermelha. Stalin chegou ao poder não graças a qualidades pessoais, mas a um aparato impessoal. E não foi ele quem criou o aparato, mas o aparato que o criou.” [25]

Trotsky destruiu o “mito de Stalin” ao revelar as relações socioeconômicas e de classe das quais ele surgiu. Este mito, escreveu Trotsky, “é desprovido de quaisquer qualidades artísticas. Ele só é capaz de surpreender a imaginação através da grandiosa onda de descaramento que corresponde completamente com o caráter da casta gananciosa dos principiantes, que não veem o dia em que se tornarão os senhores da casa”. [26]

A descrição de Trotsky da relação de Stalin com sua comitiva de sátrapas corruptos lembra as sátiras de Juvenal:

Calígula fez de seu cavalo favorito um Senador. Stalin não tem nenhum cavalo favorito e até agora não há nenhum deputado equino sentado no Soviete Supremo. Entretanto, os membros do Soviete Supremo têm tão pouca influência no curso dos assuntos na União Soviética quanto o cavalo de Calígula, ou até mesmo a influência que seus senadores tiveram sobre os assuntos de Roma. A Guarda Pretoriana estava acima do povo e, em certo sentido, até mesmo acima do Estado. Ela tinha que ter um Imperador como juiz definitivo. A burocracia stalinista é equivalente a uma moderna Guarda Pretoriana, tendo Stalin como seu Líder Supremo. O poder de Stalin é uma forma moderna de Cesarismo. É uma monarquia sem coroa e, até agora, sem um herdeiro aparente. [27]

No reino da política, Trotsky foi a maior mente de sua época. Ele representava uma ameaça intolerável para o regime stalinista, que funcionava em última análise como uma agência do imperialismo mundial. Ele não podia permitir que Trotsky vivesse. Trotsky compreendia muito bem as forças contra ele: “Posso, portanto, afirmar que vivo nesta terra não de acordo com a regra, mas como uma exceção à regra”. [28] Mas mesmo diante de um perigo tão extremo, Trotsky manteve um grau extraordinário de objetividade pessoal:

Em uma época reacionária como a nossa, um revolucionário é obrigado a nadar contra a corrente. Estou fazendo isso da melhor maneira que eu posso. A pressão da reação mundial tem se expressado talvez da forma mais implacável no meu destino pessoal e no destino daqueles que me são próximos. Não vejo nisto nenhum mérito meu: este é o resultado do entrelaçamento de circunstâncias históricas. [29]

Continua.

[1] Writings of Leon Trotsky 1939-40, p. 233

[2] Ibid, pp. 233-34

[3] Ibid, p. 235

[4] O autor deste ensaio se envolveu em inúmeras discussões com Harold Robins (1908-1987) durante nossa colaboração nos anos 1970 e 1980 na investigação do Comitê Internacional sobre o assassinato de Trotsky.

[5] Writings of Leon Trotsky 1939-40, p. 247

[6] Ibid, p. 248

[7] Ibid, p. 247

[8] Patenaude, Bertrand M., Trotsky: Downfall of a Revolutionary (HarperCollins e-books. Kindle Edition), p. 256

[9] “Healy’s Big Lie”, in Education for Socialists, December 1976, p. 36

[10] Writings of Leon Trotsky 1939-40, pp. 363-64

[11] Barry Carr, “Crisis in Mexican Communism: The Extraordinary Congress of the Mexican Communist Party”, Science & Society, Spring, 1987, Vol. 51, No. 1, p. 50

[12] Ibid, p. 51

[13] Ibid, p. 54

[14] Writings of Leon Trotsky 1939-40, p. 352

[15] Stalin: Triumph & Tragedy, traduzido por Harold Shukman (New York, 1988), pp. 254-256

[16] Writings of Leon Trotsky 1939-40, p, 350

[17] Ibid, p. 351

[18] From Lenin to Stalin (New York, 1937), p. 104

[19] Writings of Leon Trotsky: Supplement 1934-40 (New York, 1979), p. 830

[20] O tradutor e editor desta nova edição é Alan Woods. Embora ele esteja associado a uma tendência política de esquerda com a qual o Comitê Internacional tem diferenças políticas conhecidas e fundamentais, os esforços de Woods na produção desta edição de Stalin de Trotsky merecem ser reconhecidos e elogiados.

[21] Leon Trotsky, Stalin, editado e traduzido por Alan Woods (London, 2016), p. 545

[22] Ibid

[23] Ibid

[24] Ibid, p. 565

[25] Ibid, p. 676

[26] Ibid, p. 672

[27] Ibid

[28] Writings of Leon Trotsky 1939-40, p. 250

[29] Ibid