Após um milhão de mortes, governos abandonam esforços para conter a pandemia de COVID-19

5 Outubro 2020

Publicado originalmente em 30 de setembro de 2020

Nesta semana, em meio a um ressurgimento global da pandemia de COVID-19, o mundo chegou à terrível marca de um milhão de mortes pela doença. Cerca de 210 mil pessoas morreram nos Estados Unidos, 142.161 no Brasil, 96.351 na Índia, e 76.430 no México.

A doença continua a se espalhar em todo o Hemisfério Sul, com a Índia chegando à chocantes 80.500 novos casos ontem.

A Europa, um centro inicial da propagação, está novamente no centro de um significativo ressurgimento do vírus. Houveram mais 7.143 casos de coronavírus registrados no Reino Unido nas últimas 24 horas — o maior aumento desde o início da pandemia.

Na semana passada, a França relatou um novo pico de 16.096 casos em 24 de setembro, mais do que o triplo de casos registrados no auge da disseminação em março.

Porém, com a previsão de um ressurgimento da doença nos próximos seis meses, os governos ao redor do mundo estão abandonando qualquer esforço de contenção.

“Às vezes eu penso que apenas desistimos e vamos deixar a epidemia continuar”, disse Carlos Del Rio, um professor de medicina na Universidade de Emory, ao Wall Street Journal na terça-feira. As palavras de Del Rio resumem a posição que prevalece cada vez mais nas mansões presidenciais e parlamentos em todo o mundo.

No mês passado, o presidente francês, Emmanuel Macron, na administração de um país com o maior ressurgimento de casos na Europa, declarou que a população francesa precisava “aprender a conviver com o vírus”. Substituindo a sua retórica sobre uma “guerra” contra a doença, Macron declarou: “Tudo deve ser feito para evitar um lockdown total”.

A teoria da “imunidade de rebanho”, antes defendida abertamente somente por figuras da extrema-direita como o presidente Jair Bolsonaro no Brasil, está sendo defendida abertamente nos Estados Unidos e na Europa, ganhando adesão, conforme o New York Times apontou recentemente, “em Wall Street” e “entre empresários”.

Nada resume tão bem o abandono de qualquer intenção de conter a pandemia de COVID-19 quanto o que, na prática, é o descarte dos maiores especialistas de saúde do país por Donald Trump e a sua substituição pelo falso médico de extrema-direita, Scott Atlas, que defende infectar deliberadamente a população com a COVID-19.

Na segunda-feira, pela segunda vez consecutiva, uma reunião importante da Casa Branca não contou com a presença dos especialistas em saúde pública, Anthony Fauci, Deborah Birx, e Robert Redfield, e a reunião foi colocada à disposição de Atlas.

Em 23 de setembro, em uma coletiva de imprensa, logo após as declarações de Trump de que não deixaria o governo pacificamente se Biden fosse eleito, Trump entregou inteiramente a coletiva para Atlas, que denunciou o diretor do Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC), Robert Redfield, por “falar erroneamente” sobre o perigo da pandemia.

Aquilo que, na prática, é a expulsão dos principais especialistas em saúde pública do país tem sido aceito sem qualquer declaração de oposição ou protesto por qualquer membro do nominal partido de oposição.

Restou aos cientistas tentarem se defender sozinhos. O canal NBC News noticiou que ouviu uma ligação na qual Redfield dizia que Atlas está “armando Trump com dados enganosos sobre várias questões, incluindo questionar a eficácia das máscaras, a suscetibilidade dos jovens ao vírus e os potenciais benefícios da imunidade de rebanho”

A NBC noticiou Redfield dizendo com desespero: “Tudo o que ele diz é falso”. Quando foi pedido para que comentasse sobre as afirmações de Redfield, Fauci criticou o falso médico: “Eu acredito que vocês sabem quem é o ponto fora da reta”.

Fauci, Birx e Redfield defenderam, ao menos publicamente, que o governo deve buscar conter a pandemia e impedir as pessoas de ficarem doentes e pediu ao público que tomasse medidas como o uso de máscara.

Em contraste, Atlas defende que nenhum esforço seja feito para impedir a propagação da pandemia entre amplas seções da população. Conforme ele disse em julho, “Não é um problema grupos de baixo risco sendo infectados. De fato, é algo positivo”.

Dados esses acontecimentos, a completa falta de noticiamento, muito menos crítica daquilo que, na prática, é a adoção da “imunidade de rebanho” pela Casa Branca, é chocante.

Em abril, quando Trump especulou em uma das suas coletivas de imprensa que a COVID-19 poderia ser tratada injetando desinfetantes nos pulmões dos pacientes, a imprensa noticiou esse fato exclusivamente durante dias. Por mais irresponsáveis que sejam as afirmações de Trump sobre falsos tratamentos, eles não teriam prejudicado mais do que alguns dos seus seguidores iludidos que seguiram o seu conselho.

Porém, Atlas está efetivamente determinando uma política para o país inteiro, em uma direção que irá levar à outras centenas de milhares de mortos, e não há qualquer sinal de protesto dentro do establishment político.

Existem razões de classe definidas para esse silêncio. Na sua última entrevista com Laura Ingraham, Atlas apresentava o slogan: Abram as escolas!

Porém, isso é exatamente o que os governadores, prefeitos e legislativos estaduais democratas estão fazendo. Nova York, o maior distrito escolar dos EUA, com mais de um milhão de estudantes, retomou as aulas presenciais na terça-fera para crianças do ensino primário, com séries posteriores com reabertura marcada para quinta-feira.

A campanha pela reabertura das escolas está sendo coordenada pelo prefeito democrata “progressista”, Bill de Blasio, e pelo governador democrata, Andrew Cuomo.

A reabertura das escolas está levando a um grande ressurgimento da pandemia entre crianças em idade escolar em todo o país, que agora constituem 10% dos casos de COVID-19, um aumento de 2% em relação à abril.

O caráter bipartidário da campanha pela reabertura das escolas e para forçar o retorno ao trabalho dos professores é inteiramente coerente com a resposta à pandemia, que tem sido ditada unicamente pelos interesses financeiros da classe dominante.

No início do mês, o jornalista veterano do Washington Post, Bob Woodward, publicou um registro de Trump dizendo que ele havia procurado “abrandar” conscientemente a ameaça apresentada pela pandemia.

Porém, outras informações no seu livro esclarecem que Trump estava na liderança de uma conspiração muito mais ampla para acobertar a ameaça da pandemia, da qual fizeram parte o congresso e principais políticos no governo.

Woodward aponta que, em 9 de fevereiro, Fauci e Redfield realizaram uma reunião secreta com governadores dos estados, na qual eles procuraram “assustar pra valer a sua audiência”:

A disseminação do coronavírus vai piorar muito antes de melhorar, advertiu Redfield. Nem sequer vimos o início da pior parte, disse Redfield. Não há razão para acreditar que o que está ocorrendo na China não irá acontecer aqui, ele disse. Naquele momento, havia aproximadamente 40 mil casos na China, com mais de 800 mortes, cinco semanas após o anúncio dos primeiros casos. Eu concordo completamente, disse Fauci aos governadores. Isso é muito sério. Vocês precisam estar preparados para problemas nas suas cidades e nos seus estados. Fauci viu os rostos alarmados dos governadores. “Eu acredito que assustamos eles pra valer”, disse Fauci após a reunião.

Porém, Woodward apontou que a declaração oficial para a imprensa apresentava um retrato completamente falso: “O painel ressaltou que ... o risco para o público estadunidense permanece baixo neste momento”. A mídia dos EUA, com as suas várias “fontes anônimas” nas agências de inteligência do governo, deixou de noticiar sobre a reunião, e o New York Times só publicaria um editorial sobre a pandemia de COVID-19 mais de duas semanas depois.

De fato, há uma continuidade macabra entre o acobertamento no início do ano e a atual campanha para abandonar todos os esforços de contenção da pandemia nos EUA e em toda a Europa.

A única preocupação das classes dominantes do mundo foi utilizar a pandemia como um pretexto para levar adiante a transferência de trilhões de dólares para os balanços das empresas. Em uma questão de dias após a passagem da lei CARES, a palavra de ordem “a cura não pode ser pior do que a doença” foi destacada nas páginas de opinião do New York Times e na conta do Twitter de Trump, como parte de uma campanha para retirar prematuramente os lockdowns.

A forte campanha pelo retorno ao trabalho ao mesmo tempo em que a pandemia continua se espalhando levou recentemente a um enorme ressurgimento de casos da pandemia e um grande número de mortos.

Do ponto de vista da classe dominante, a pandemia é atualmente mais benéfica do que prejudicial, matando os idosos e disponibilizando o dinheiro que seria utilizado para cuidar daqueles que não podem mais gerar lucros.

Essas políticas resultaram em mais de 200 mil mortos nos EUA e mais de um milhão de mortos em todo o mundo, e as vidas de milhões ainda estão ameaçadas.

Porém, em meio a esta marca terrível, outra força social está entrando em cena. Os trabalhadores de vários setores em todo os Estados Unidos e internacionalmente formaram comitês de base, independentes dos sindicatos corruptos, com o objetivo de resistir à campanha das corporações pelo acobertamento das infecções e a destruição de quaisquer protocolos de segurança restantes.

Enquanto buscam combater as políticas criminosas dos seus empregadores, os trabalhadores são colocados em luta contra toda a ordem social capitalista. Eles devem tirar a conclusão de que a luta pela preservação da vida e a luta contra o capitalismo são a mesma luta.

Andre Damon