COVID-19: Site Révolution Permanente do NPA francês se alinha com reabertura de escolas de Macron

Por Anthony Torres
8 Outubro 2020

Publicado originalmente em 22 de setembro de 2020

Em meio à crescente oposição internacional entre professores e trabalhadores contra a reabertura de escolas durante a pandemia de COVID-19, o site do Novo Partido Anticapitalista (NPA) Révolution Permanente (RP) está se tornando cúmplice da política do Estado. Ao mesmo tempo em que faz críticas táticas às diretrizes de saúde do Estado, apoia tacitamente uma reabertura mortal de escolas. Suas exigências são inteiramente compatíveis com as atividades da burocracia sindical francesa.

Os sindicatos estão liderando os esforços para empurrar os trabalhadores de volta às fábricas e os alunos de volta à escola. A Confederação Geral do Trabalho (CGT) stalinista apoia explicitamente o resgate da União Europeia do presidente Emmanuel Macron e da chanceler alemã Merkel. A CGT assinou uma declaração de 20 de maio com a Confederação dos Sindicatos Alemães (DGB) que “aplaude especialmente a iniciativa franco-alemã de relançar a economia europeia apresentada pelo presidente francês e pela chanceler alemã em 18 de maio de 2020 após a crise do coronavírus”.

A reabertura de escolas e o resgate massivo de bancos estão no centro deste plano. A política de retorno às aulas está acelerando a pandemia, que já causou quase um milhão de mortes em todo o mundo. Em todos os lugares esta política desperta uma enorme oposição. Centenas de protestos a denunciaram; mais de cem grupos do Facebook foram criados internacionalmente, atraindo centenas de milhares de apoiadores.

Neste contexto, o RP publicou uma série de artigos discutindo como reabrir escolas francesas. O artigo intitulado “Reabertura com Covid: ‘as escolas não estão prontas’ diz uma associação de médicos” admite que a reabertura das escolas “constituiu um sério estímulo para a epidemia, como aconteceu em Israel ou no Chile”. De fato, a inteligência alemã espera que um milhão de vidas possam ser perdidas, só na Alemanha, sem medidas drásticas de distanciamento social.

Entretanto, o RP alega que o perigo não vem da reabertura imprudente de escolas, mas da “confusão” e da “aplicação inconsistente” de protocolos de saúde do Estado: “O retorno às aulas em 2020 ocorreu em 1º de setembro e já foram fechadas cinco escolas na França continental e uma na Ilha Reunião. Mas ainda mais preocupante que o fechamento de escolas são protocolos de saúde inconsistentes, refletindo a grande confusão que domina este novo ano letivo nestas circunstâncias especiais.”

O RP teme que as infecções por COVID-19 nas escolas e a ausência de medidas de saúde estejam provocando uma crescente oposição entre professores e pais. Em um artigo intitulado “Um recomeço caótico das aulas: queremos máscaras gratuitas, testes em massa e contratação”, escreve: “Com procedimentos de saúde insuficientes e falta de recursos humanos e meios para receber os alunos com segurança, não faltam motivos para raiva entre os professores”.

Um abismo de classe separa as exigências de professores e trabalhadores que querem continuar seguros e as do RP, que se recusa a chamar trabalhadores e professores para se mobilizarem contra a reabertura de escolas. O perigo para professores, alunos e suas famílias não vem de um ou outro protocolo de reabertura de escolas, mas de qualquer tentativa de reabrir escolas em meio a uma pandemia mortal.

O WSWS e o Parti de l’égalité socialiste (PES) fizeram um chamado aos professores para se mobilizarem com outros trabalhadores para preparar uma greve geral internacional contra a reabertura de escolas e o retorno ao trabalho, que coloca milhões de pessoas em todo o mundo expostas a perigos mortais.

Nos Estados Unidos, desde a reabertura de escolas secundárias e de universidades, foram registrados mais de 51.000 casos de COVID-19 em 1.000 campi, dos quais 35.000 ocorreram nas últimas três semanas. Na França, o rápido crescimento da pandemia é extremamente perigoso. Com o país registrando cerca de 10.000 novas infecções por dia, 32 escolas e 524 salas de aula fecharam após duas semanas do retorno à escola.

O RP fornece uma cobertura “esquerda” para a reaberturas de escolas pelos sindicatos e elites dominantes. O RP não se opõe à reabertura de escolas e à campanha de volta ao trabalho, bem pelo contrário. O site tenta apresentar suas exigências reacionárias sob uma luz “militante” – como máscaras e testes gratuitos para alunos e professores no perigoso ensino presencial em salas de aula lotadas – mas o RP tem apenas pequenas diferenças com o Estado, compatíveis com a política sindical.

O RP quer canalizar a enorme oposição à reabertura de escolas por trás de apelos impotentes para modificar os protocolos de saúde de volta às aulas, enquanto professores e trabalhadores devem se opor à própria campanha de volta às aulas.

Professores e trabalhadores estão enfrentando condições mortais. O RP encobre esta política, insistindo que não se trata de uma conspiração: “Não há nenhuma conspiração na saúde e nas medidas econômicas tomadas pela elite dominante. Isto seria imaginar a escuridão espiritual (um estado de espírito que então seria possível mudar?), onde na verdade é apenas uma questão de interesses de classe. Não se deve desperdiçar uma crise, como as companhias aéreas tão frequentemente nos lembram.”

Na verdade, a história tem mostrado que não há pior “escuridão” do que aceitar sacrificar milhões de vidas em favor dos interesses materiais da classe capitalista. A pandemia tem mostrado o desprezo da elite dominante pela vida dos trabalhadores. Durante meses, os governos internacionais foram informados sobre a natureza mortal do vírus por agências de inteligência e autoridades chinesas. Mas durante muito tempo eles se recusaram a tomar medidas eficientes como distanciamento social e lockdowns, enquanto os partidos de classe média como o NPA concordaram com esta política reacionária.

A única estratégia viável para os trabalhadores nestas condições perigosas é se mobilizar para impor um lockdown em condições adequadas para todos, empregando recursos maciços no apoio aos trabalhadores e pequenas empresas e aumentando os gastos com a saúde, em uma luta internacional da classe trabalhadora para tomar o poder. Isto exige uma ruptura política com partidos como o NPA, que estão ligados ao aparato sindical e ao establishment dominante.

Consciente de que a radicalização dos trabalhadores está se desenvolvendo fora dos sindicatos, o RP propõe que “comitês de professores, pais de alunos, alunos e funcionários da escola, independentes da administração escolar e do Estado, sejam formados a fim de propor uma alternativa ao enfrentamento capitalista do retorno à escola e suas consequências”.

O RP propõe a criação de comitês de trabalhadores e de professores. Entretanto, ao contrário do PES, não deixa claro que as organizações criadas pelos trabalhadores precisam ser rigorosamente independentes dos sindicatos. Isto porque está, como o NPA como um todo, intimamente ligado à CGT e quer subordinar estes comitês aos sindicatos e, portanto, às políticas da União Europeia.

O NPA como um todo fala pelos elementos abastados da classe média alta ligados aos sindicatos e às universidades. Seu apoio à política da União Europeia está enraizado nos interesses materiais de classe. Através dos resgates da UE, a aristocracia financeira injeta bilhões nos bancos e nos mercados financeiros. Por um lado, o Estado então força trabalhadores e alunos a voltar ao trabalho e à escola a fim de extrair lucros sobre estes vastos números de capital; por outro lado, estas verbas vão para os cofres dos sindicatos e para as carteiras de ações da classe média abastada.

Professores e trabalhadores não devem esperar nenhum benefício do RP. Eles enfrentam a tarefa de criar seus próprios comitês de ação independentes, rompendo com os sindicatos e seus aliados como o RP e o NPA, e de mobilizar esses comitês em uma luta pelo socialismo contra a pandemia e o sistema capitalista.