As eleições de guerra civil na Bolívia

Por Tomas Castanheira
15 Outubro 2020

Publicado originalmente em 13 de outubro de 2020.

No próximo domingo, serão realizadas as primeiras eleições gerais na Bolívia desde que o presidente eleito Evo Morales foi derrubado por um golpe militar apoiado pelos Estados Unidos, colocando o governo autoproclamado de Jeanine Áñez no poder.

O regime do golpe, que tomou o poder prometendo convocar novas eleições num período de 90 dias, adiou três vezes a data das votações. Hoje, menos da metade dos bolivianos, somente 43%, acredita que seu voto no domingo será respeitado, segundo uma pesquisa de Tu Voto Cuenta.

A ampla rejeição popular ao governo de Áñez expressou-se ao longo do último ano em contínuas manifestações de massas de trabalhadores e camponeses por todo o país.

Em novembro, dezenas de milhares tomaram as ruas da capital La Paz e outras cidades bolivianas para resistir ao golpe. Foram violentamente reprimidos pelas forças militares acompanhadas por bandos fascistas como a Resistencia Juvenil Cochala (RJC) e a Unión Juvenil Crucenista (UJC), ligada ao candidato presidencial ultradireitista, Luis Fernando Camacho. Em dois episódios brutais, militares massacraram ao menos 23 pessoas e deixaram outras 230 feridas, recebendo proteção legal do governo em seguida.

Jeanine Áñez discursa no aniversário da Força Aérea Boliviana, 12 de outubro de 2020. (Crédito: Agencia Boliviana de Informacion)

Os protestos foram retomados este ano em oposição à resposta incompetente e violenta do regime à pandemia de COVID-19 e seus sucessivos adiamentos das eleições. Em agosto, uma onda de greves e bloqueios de estradas tomou conta do país por dez dias, com as massas exigindo a queda imediata do governo de Áñez.

Em ambas ocasiões, o Movimiento al Socialismo (MAS) de Morales cumpriu o papel essencial de desarmar a revolta nas ruas, manobrando com os autores do golpe pelas costas dos trabalhadores e camponeses. Morales se contrapôs duramente às demandas populares pela derrubada do regime, defendendo que a realização de novas eleições era a única saída para reestabelecer a democracia na Bolívia.

Entretanto, o acordo eleitoral articulado pelo MAS está provando ser uma farsa que não dá nenhuma garantia de que formas democráticas de governo serão reestabelecidas pela classe dominante.

No último 18 de setembro, a presidente autoproclamada Jeanine Áñez retirou sua fracassada candidatura à presidência, que acumulava pouco mais de 10% de intenções de voto, passando a apoiar o candidato direitista Carlos Mesa, de Comunidad Ciudadana (CC), derrotado nas eleições do ano passado por Morales.

Quando Áñez abandonou sua candidatura, Mesa aparecia em segundo lugar nas pesquisas, com 26,2%, mais de dez pontos atrás de Luis Arce do MAS, com 40,3%, o que indicava uma vitória em primeiro turno do candidato do MAS.

Mas os cálculos políticos de Áñez e seus aliados, mesmo ao tentar impulsionar um concorrente mais forte contra o MAS, não são guiados por uma estratégia eleitoral. Ao retirar-se da disputa presidencial, Áñez convocou a união entre os partidos da direita, clamando: "Se não nos unirmos, Morales volta, volta a ditadura". Essa afirmação, cujo conteúdo essencial tem sido sistematicamente repetido pelos líderes do golpe, implica que mesmo uma vitória do MAS nas urnas será considerada ilegítima e passível de ser derrubada pelos militares.

É exatamente esse caminho que Áñez está pavimentando nos bastidores das eleições. Ela e seu ministro de Governo, Arturo Murillo, estão utilizando seu controle sobre a máquina estatal para impulsionar uma campanha para tornar o MAS ilegal e mobilizar forças fascistas entre os militares que sirvam como pilares de um regime de terror contra as massas trabalhadoras e populares.

Na última sexta-feira, o governo de facto celebrou os 53 anos da execução sumária de Ernesto Che Guevara pelos militares bolivianos e seus "conselheiros" da CIA, fazendo uma sórdida homenagem a seus assassinos. Áñez declarou que a lição dada pela morte de Guevara "é que a ditadura comunista aqui não tem vez". E advertiu que qualquer estrangeiro "seja cubano, venezuelano, argentino", que venha à Bolívia "causar problemas, encontrará a morte".

A agitação fascista continuou nos dias seguintes. No sábado, num evento oficial transmitido em rede nacional, Áñez violou a legislação eleitoral boliviana convocando a população a votar naqueles que “permitam que Morales e o MAS não voltem a nos governar”. Ela ainda disse sobre o MAS: “Eles são violentos, eles depreciam a democracia, eles querem submeter toda a população e desenhar um estilo de vida".

No mesmo dia, o ministro de Governo Murillo participou de um evento da polícia em Santa Cruz, onde glorificou o papel cumprido pelos agentes policiais no golpe de novembro e lhes dirigiu um apelo: “Nós, digo nós porque me sinto um de vocês, temos uma tarefa dupla; uma com a democracia, para ir votar e garantir que não volte a ditadura, que não volte o pedófilo, e a outra, temos a obrigação de cuidar do voto da população”.

Na segunda-feira, num evento celebrando o aniversário da Força Aérea Boliviana, Áñez seguiu o mesmo script. Ela declarou: “No ano passado, em novembro, as Forças Armadas junto ao povo boliviano disseram não à ditadura, e esse foi o final de um longo e terrível período de autoritarismo populista".

Murillo deixou clara a "tarefa dupla" que reserva aos militares nas eleições ao exigir a extensão do "auto de bom governo", que proíbe a reunião de pessoas em lugares públicos, por dois dias depois das votações. Uma operação conjunta das forças armadas e da polícia será mobilizada no país, pronta a reprimir violentamente qualquer manifestação popular contra um novo golpe eleitoral.

Esses esforços estão sendo coordenados quase abertamente com o imperialismo americano. Em 28 de setembro, Murillo embarcou em uma viagem oficial aos Estados Unidos, declaradamente "para cumprir uma agenda de trabalho com a Organização dos Estados Americanos (OEA), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Departamento de Estado dessa nação norte-americana".

Mesmo com representantes do MAS denunciando uma série de violações, que colocam a legitimidade de todo o processo eleitoral em questão, sua resposta a esses acontecimentos expõe o caráter covarde desse partido da burguesia boliviana, bem como sua hostilidade a qualquer mobilização independente da classe trabalhadora.

As atividades de campanha do MAS sofreram reiterados ataques violentos, como o uso de gás lacrimogênio para acabar com uma reunião de juventude recentemente em El Alto. Por outro lado, outros ataques têm sido atribuídos, sem provas, a militantes do MAS pela imprensa e partidos de direita que, em conjunto com o governo, buscam classificá-lo como uma organização terrorista.

Somente dez dias antes das eleições, o candidato presidencial do MAS, Luis Arce, foi acusado de enriquecimento ilícito enquanto era ministro da Economia do governo de Morales. O MAS respondeu declarando que a acusação é parte de uma "guerra suja" contra si. Arce enfrenta quatro processos criminais, incluindo a acusação de "terrorismo", todos fabricados pelo governo de Áñez.

Esta semana o MAS alertou que estaria em curso um "segundo golpe" no país, apontando a uma série de irregularidades e falta de transparência nos procedimentos adotados para as eleições de domingo.

Apesar disso, numa entrevista nesta segunda-feira para o La Razón, o porta-voz do MAS, Sebastián Michel, afirmou que os problemas da população terão fim no próximo domingo, assim que as eleições forem realizadas!

Michel fez um apelo por confiança no duvidoso processo eleitoral, clamando: "Que o povo que está sofrendo, tenha um pouco mais de paciência; que o povo que está passando fome, aguente um pouco mais; já falta pouco para acabar o pesadelo … Já está chegando o momento em que as empresas estatais voltarão a funcionar … em que a distribuição de renda voltará a funcionar".

Isso é uma mentira. Não apenas pelo caráter fraudulento das eleições conduzidas pelo regime do golpe, mas porque os problemas enfrentados pelas massas bolivianas têm raízes numa profunda crise do capitalismo internacional, que a perspectiva nacional burguesa do MAS não pode solucionar. Eles não têm nada a oferecer às massas trabalhadoras, exceto a exigência de que "aguentem um pouco mais".

As condições econômicas sobre as quais a presidência de Morales esteve baseada, o aumento no preço das commodities e a entrada de capital europeu e chinês no país, já naufragavam rapidamente nos últimos anos de seu governo, marcados por ataques à classe trabalhadora. Sua defesa do capitalismo é o que faz o MAS capitular vergonhosamente aos fascistas.

Os esforços ditatoriais da classe dominante e as condições de miséria crescente das massas só podem ser combatidos através da mobilização política independente da classe trabalhadora boliviana com base num programa socialista. Essa luta abrirá possibilidades imensas e ganhará um apoio esmagador dos trabalhadores da América Latina, dos Estados Unidos e internacionalmente.

 

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