Morenistas brasileiros aliam-se a Bolsonaro ao promoverem a hidroxicloroquina contra a COVID-19

Por Gabriel Lemos
24 Dezembro 2020

Publicado originalmente em 23 de dezembro de 2020

Acompanhando o aumento no número de casos e mortes por COVID-19 ao redor do mundo, uma segunda onda da pandemia do novo coronavírus está se espalhando de maneira descontrolada pelo Brasil. Na semana passada, dezoito dos 26 estados brasileiros e o Distrito Federal apresentaram um aumento na média móvel de mortes, e seis deles estão com as UTIs à beira do colapso.

O Brasil possui mais de 7 milhões de casos de coronavírus e 188 mil mortes, atrás dos EUA e Índia em número de casos e apenas dos EUA em mortes.

Bolsonaro com caixas de HCQ em uma de suas lives no Facebook

Se uma pandemia como esta já era previsível, isso vale ainda mais para a segunda onda. Porém, desde julho, um terço das UTIs criadas exclusivamente para o tratamento da COVID-19 no Brasil foram desativadas. Essa situação expõe ainda mais a política homicida de imunidade de rebanho do governo do presidente fascista Jair Bolsonaro e dos governadores estaduais, incluindo os da suposta oposição do Partido dos Trabalhadores (PT).

Hoje, a política de imunidade de rebanho de Bolsonaro está assumindo a forma de uma campanha anti-China e antivacina que ameaça comprometer significativamente a ampla vacinação da população brasileira no ano que vem. Ao mesmo tempo, Bolsonaro tem promovido freneticamente medicamentos que não possuem comprovação científica contra a COVID-19, como a hidroxicloroquina (HCQ) e o vermífugo ivermectina, para forçar o fim das poucas medidas de lockdown que ainda restam no Brasil.

Nesse contexto, a pseudoesquerda internacional e brasileira tem procurado dar uma cobertura de esquerda à política de imunidade de rebanho da elite dominante mundial. Em setembro, a Revista Jacobin promoveu um dos proponentes acadêmicos dessa política, Martin Kulldorff, que viria a ser um dos autores da declaração “de morte” de Great Barrington. No Brasil, esse exemplo está sendo seguido pela seção brasileira da morenista Fração Trotskista, o Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), em seu site Esquerda Diário.

Desde o início da pandemia no Brasil, o importante militante do MRT Gilson Dantas tem escrito artigos para defender o uso da HCQ e, mais recentemente, da ivermectina contra a COVID-19. Em um artigo de 15 de abril intitulado “O debate médico sobre a hidroxicloroquina e a irresponsabilidade sanitária de Bolsonaro”, ele tenta em vão diferenciar sua posição da do presidente fascista, dizendo que apesar de ser defendida “demagogicamente por governos de extrema-direita”, a esquerda tem “contestado ou ignorado” a hidroxicloroquina “com a alegação de que ‘não foi comprovada’” sua eficácia contra a COVID-19.

Uma das “evidências” mostradas por Dantas, uma recomendação para o uso da HCQ que Portugal suspenderia mais tarde

Ele cita estudos observacionais com a HCQ na China, onde “a hidroxicloroquina passou a ser orientação oficial no tratamento do COVID-19”, e na França, onde o Dr. Didier Raoult “conseguiu derrubar a carga viral de todos os pacientes e zerar a daqueles que associaram a azitromicina à hidroxicloroquina, em SEIS dias”.

Sem questionar as sérias limitações dos estudos chinês e francês, afirma que, “inequivocamente, a hidroxicloroquina teve efeito clínico positivo, concreto”. Isso, porém, está longe de ser verdade. Estudos para se comprovar a eficácia de um medicamento devem ser randomizados, duplo cego e com grupo controle. Em nenhum dos estudos apresentados por Dantas isso aconteceu. O estudo do Dr. Raoult foi ainda retratado do International Journal of Antimicrobial Agents em 3 de abril por “não atender aos padrões esperados de qualidade” científica. Tudo isso tinha sido amplamente noticiado antes de Dantas escrever seu artigo promovendo a HCQ.

O artigo de Dantas foi publicado logo depois de Trump e Bolsonaro terem iniciado em março uma campanha frenética pelo uso da HCQ contra a COVID-19. No Brasil, essa campanha ganhou uma cobertura pseudocientífica realizada por cientistas de direita defendendo o uso da HCQ. O mais vocal desses cientistas tem sido Paolo Zanotto, destacado epidemiologista da Universidade de São Paulo (USP). Dantas também utilizou a “autoridade científica” de Zanotto para justificar sua defesa da HCQ.

Em um artigo publicado na Folha de S. Paulo em 7 de abril, Zanotto escreveu que, numa pandemia, “não temos tempo para aguardar os resultados de avaliações clínicas”, completando que “o mais razoável é o tratamento precoce com a hidroxicloroquina”. Mesmo com todos os efeitos colaterais da HCQ há muito tempo conhecidos, esse mesmo argumento seria também utilizado por um grupo de cientistas chamado “Docentes pela liberdade” em duas cartas enviadas a Bolsonaro em abril e maio em que defendiam o tratamento precoce de COVID-19 com HCQ. Criado no ano passado por apoiadores do presidente, os “Docentes pela liberdade” dizem combater a “perseguição ideológica e a hegemonia da esquerda” nas universidades.

Capa do site Quinina (https://quinina.com.br/) citado por Dantas

O porta-voz das cartas foi o ex-professor de química da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) Marcos Eberlim, que hoje coordena o Discovery Institute no Brasil e preside a criacionista Sociedade Brasileira de Design Inteligente. Eles pediam que se abandonasse o “consenso científico”, isto é, “ensaios clínicos multicêntricos com duplo cego” para liberar o uso da HCQ. Eberlim ainda justificou isso dizendo que atua em “uma área da ciência que estuda nossas origens, na qual uma teoria [a teoria da evolução de Darwin] é apresentada como pleno consenso científico”, mas “reinam mais dúvidas do que certezas”.

Depois dos artigos de abril, Dantas levou cinco meses para voltar a defender o uso da HCQ. Em 15 de setembro, o Esquerda Diário divulgou o livro de Dantas, “Coronavírus: a doença e opções de tratamento”. Repetindo os argumentos anteriores, mas sem se referir à HCQ, diz que o livro apresenta “dados que mostram a capacidade de duas drogas de zerar a carga viral in vivo e em humanos, através de inúmeros estudos clínicos de sequência de casos, que apontam para a insofismável utilidade clínica de tais fármacos para evitar desfechos letais da doença”. Essa afirmação não possui nenhuma base científica.

O último artigo dele sobre esse assunto, publicado em 2 de dezembro com o título “Tratamento da doença do COV-19: contra Bolsonaro e a favor da ciência”, faz uma defesa aberta do uso da HCQ e também da ivermectina. Depois de meses em que inúmeros estudos foram incapazes de mostra a eficácia da HCQ contra a COVID-19, mais notadamente o britânico “Recovery Trial” em junho e o ensaio clínico Solidariedade da Organização Mundial da Saúde em outubro, Dantas insiste que “experiências clínicas de países como França, China e outros ... estão salvando vidas”.

O artigo de Dantas não cita nenhum estudo recente que comprove a eficácia da HCQ e da ivermectina. Porém, ele contém fotos de cinco reportagens sobre estudos que mostram a suposta eficácia da HCQ e de seu suposto uso benéfico na Indonésia, em Portugal e na Costa Rica. Todas as reportagens foram publicadas entre 17 de maio e 2 de julho no site Quinina, que no cabeçalho possui um banner da “Fondation Méditerranée Infection” do Dr. Didier Raoult.

Entre as tantas publicações no site criado para promover a HQC contra a COVID-19, estão dezenas de textos e vídeos de Paolo Zanotto. Em um dos vídeos divulgados, Zanotto se coloca contra as medidas de lockdown nos termos mais reacionários, dizendo que fazem parte de “uma guerra de valores” ou “cultural” para “manipular a realidade e se impor outra”, ou seja, “alterar o cotidiano de forma brusca, que os jacobinos fizeram, os bolcheviques fizeram, que os nazistas tentaram fazer na Alemanha”. Tais posições reacionárias são também compartilhadas pelo Dr. Raoult, que em janeiro minimizou a pandemia, e também é conhecido por negar o aquecimento global e a teoria da evolução de Darwin.

A resposta do Esquerda Diário à defesa de Dantas do uso da HCQ contra a COVID-19 e de seu alinhamento a elementos direitistas não poderia ter sido mais cínica e sem princípios. Desde setembro, os artigos dele vem acompanhados por uma nota que declara que a posição de Dantas “não representa a opinião do MRT, que não se pronuncia contra nem a favor de medicamentos ara a doença do COV-19 e tampouco defende o debate sobre tratamento do COV-19”.

Nada poderia expor mais claramente o caráter pequeno-burguês dessa organização, juntamente com sua irresponsabilidade criminosa e seu desprezo pela vida dos trabalhadores que estão sendo vitimados diariamente pela pandemia mortal. O MRT não é “contra nem a favor” da promoção de falsas informações e teorias reacionárias que só podem levar a ainda mais mortes.

Além disso, a resposta do MRT, por um lado, é completamente hostil aos esforços do marxismo para se debruçar cuidadosamente sobre as mais avançadas áreas científicas. Com a pandemia de COVID-19, isso se tornou ainda mais necessário para analisar o novo coronavírus, a doença e suas intersecções com a sociedade, e para elaborar um programa de ação que preserve a saúde e a vida da classe trabalhadora internacional. Por outro, ela ignora os inúmeros artigos publicados anteriormente no Esquerda Diário por Dantas e outros que promoveram abertamente a defesa de “terapias alternativas” pseudocientíficas.

Em 2015 e 2016, o Brasil testemunhou um amplo debate sobre a fosfoetanolamina, uma droga que foi produzida e distribuída por 20 anos pelo professor de química da USP Gilberto Chierice como a “cura do câncer”. Em 2015, a Anvisa determinou a suspensão da produção e distribuição da fosfoetanolamina, uma vez que até então não haviam sido realizados ensaios clínicos que comprovassem a sua eficácia. Ensaios clínicos posteriores viriam a mostrar que ela não possui eficácia contra o câncer.

Na época, Dantas e o Esquerda Diário denunciaram amplamente o fim da distribuição da fosfoetanolamina a pacientes com câncer. Dantas chegou a afirmar que a droga “tem poder terapêutico [a não ser que imaginemos que milhares estejam mentindo...]”, e que a grande mídia, aliada à “Big Pharma”, manipulou a opinião pública para mostrar o contrário. Ele ainda tentou fundamentar sua posição em defesa da fosfoetanolamina recorrendo à “teoria sobre o câncer” do ganhador do prêmio Nobel de Medicina de 1931, Otto Warburg, que, segundo ele, “jamais foi levada a sério pela oncologia oficial”.

Na verdade, a oncologia oficial abandonou a tese de Warburg depois de ficar claro nos anos 1970 que o câncer é causado por mutações genéticas. Além de ter fundamentado a defesa de Chierice da fosfoetanolamina, a tese de Warburg é utilizada também pelo médico charlatão Lair Ribeiro para promover tratamentos alternativos como óleo de coco e dieta cetogênica contra o câncer. Ribeiro, que já foi utilizado por Dantas como “autoridade científica” em um artigo que minimizava os efeitos da quimioterapia contra o câncer que foi amplamente criticado pela comunidade científica, recentemente também defendeu o uso da HCQ contra a COVID-19.

Da mesma maneira que hoje o uso da HCQ une o Esquerda Diário a Bolsonaro, a mesma coisa aconteceu em torno da fosfoetanolamina. Em 2016, Bolsonaro, então deputado federal, foi o autor de um projeto de lei que liberou o uso da droga mesmo sem comprovação científica. O projeto de lei contou com amplo apoio dos deputados do PT, e a então presidente petista Dilma Rousseff o sancionou um pouco antes de sofrer impeachment.

Além disso, Dantas e Bolsonaro utilizaram na época o mesmo argumento a favor da fosfoetanolamina: para o atual presidente, a Anvisa deveria “garantir que cada cidadão tenha liberdade de procurar uma cura”, enquanto para Dantas o uso da droga estava baseado no “direito à liberdade do paciente sobre seu próprio corpo”. Essa também é a mesma perspectiva por trás da posição antivacina de Bolsonaro em nome das “liberdades dos brasileiros” e do criacionista Eberlim, para quem o “consenso científico” deve ser abandonado para promover medicamentos sem comprovação científica e as supostas bases científicas da criação do mundo por Deus.

O caráter anticientífico e antimarxista da posição de Dantas só pode ser explicado por sua origem política e social. Antes de ingressar no MRT, ele foi militante nos anos 1970 e 1980 do ultra-pablista Partido Operário Revolucionário Trotskista, a seção brasileira da Internacional fundada pelo argentino Juan Posadas em 1961. O partido foi uma das tantas tendências revisionistas que participaram da criação do PT e se liquidaram no partido.

Médico especialista em “medicina tradicional chinesa e acupuntura”, como ele fez questão de enfatizar em uma pequena autobiografia publicada em um livro de 2017 sobre o trotskismo no Brasil, Dantas representa um setor da classe média alta, por quem o Esquerda Diário fala, que há décadas abraçou uma ou outra forma de irracionalismo pós-moderno e abandonou os fundamentos objetivos da própria ciência moderna.

O real problema não é a ciência moderna, como seus detratores pós-modernos alegam, mas o fato de o capitalismo representar uma barreira ao desenvolvimento científico e ao seu uso para satisfazer as necessidades sociais da grande maioria da população mundial. Hoje, com a pandemia de COVID-19, essa contradição foi totalmente exposta. A única solução possível a essa contradição é a avançada pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional: uma resposta de emergência globalmente coordenada como parte da luta internacional pelo socialismo.

 

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