Brasil chega a 200 mil mortes por COVID-19 com Bolsonaro sabotando vacinação

Por Tomas Castanheira
9 Janeiro 2021

Com a pandemia de COVID-19 atingindo novas proporções catastróficas no Brasil, o presidente fascistoide Jair Bolsonaro está trabalhando ativamente para sabotar um programa de vacinação e levar às últimas consequências a política assassina de “imunidade de rebanho”, que ele advoga abertamente desde a chegada da pandemia ao Brasil.

Na quinta-feira, após registrar mais de 1.000 mortes diárias por três dias seguidos, o Brasil superou o marco terrível de 200.000 mortes por COVID-19. Elevadas taxas de contaminação, que ainda aguardam os impactos explosivos das festas de final de ano, se refletem na superlotação de hospitais por todo o país.

Um paciente com suspeita de COVID-19 é carregado para dentro do Hospital Regional de Samambaia, especializado no tratamento de pacientes com coronavírus em Brasília, quinta-feira, 7 de janeiro, 2021. (AP Photo/Eraldo Peres)

Uma série de hospitais em São Paulo já chegaram a 100% de ocupação. No Rio de Janeiro, há uma fila de 164 pessoas aguardando por um leito de UTI. Em Belo Horizonte, a ocupação dos leitos de UTI já se aproxima de 90%. Belém do Pará alcançou 96% da capacidade de UTIs, após o governo ter fechado hospitais de referência no tratamento da COVID-19.

A situação mais crítica no país, mais uma vez, está em Manaus. Com as cenas ainda frescas na memória da cidade de pacientes sendo atendidos em meio aos mortos nos hospitais superlotados e retroescavadeiras abrindo valas comuns às vítimas da COVID-19, a capital amazonense declarou o segundo colapso do sistema de saúde em apenas nove meses.

Quase diariamente, Manaus vem registrando recordes de internações hospitalares. Na quarta-feira, 221 pessoas foram hospitalizadas com COVID-19, um número significativamente maior do que o pico de 168 registrado em abril. No mesmo dia, a ocupação dos leitos de UTI chegou a 94%, aproximando-se a passos rápidos dos 96% atingidos em abril. As UTIs da rede privada já chegaram à lotação máxima.

A situação calamitosa dentro dos hospitais foi assim resumida num artigo da Folha de São Paulo: “um cenário de superlotação, falta de leitos, macas nos corredores e ausência de distanciamento”. Há cerca de uma semana, câmaras frigoríficas foram mais uma vez instaladas nos hospitais diante da iminente lotação de seus necrotérios.

Na quarta-feira, trabalhadores do Hospital 28 de Agosto protestaram contra as condições enfrentadas pelos profissionais de saúde. "Nós não estamos pedindo nenhum favor, estamos pedindo socorro porque o servidor da Saúde está morrendo", afirmou um técnico em radiologia no protesto, segundo o G1. Neste mesmo hospital, trabalhadores realizaram uma greve espontânea em abril.

O crescimento acelerado das mortes está provocando um novo colapso do sistema funerário. Houve um crescimento de 84% do número de enterros na capital nos primeiros dias de janeiro, em comparação ao mesmo período de dezembro. Na quarta-feira, 110 foram enterrados. O número de pessoas que morreram em suas próprias casas, independente da causa, dobrou em dezembro, e nos primeiros dias de janeiro aumentou mais uma vez acentuadamente.

A cidade decretou estado de emergência na terça-feira. O prefeito recém-eleito, David Almeida, do partido Avante, determinou em caráter emergencial a abertura de 6 mil covas nos cemitérios da cidade. Ele planeja a abertura de 22 mil covas no total.

Os motivos dessa catástrofe não são mistério. Mas a alegação do secretário de Saúde do Amazonas, de que “houve um relaxamento da população, apesar de toda a nossa propaganda para que isso não acontecesse”, não passa de uma mentira. O epidemiologista da Fiocruz Amazonas, Jesem Orellana, declarou que, apesar do surgimento de uma segunda onda em Manaus ter sido alertado há meses, “a extrema gravidade da situação da epidemia segue sendo minimizada pelas autoridades sanitárias”.

Essa segunda onda de contaminações foi o produto direto das ações criminosas do governador Wilson Lima, do Partido Social Cristão (PSC). Em agosto, as escolas estaduais de Manaus foram as primeiras a ser reabertas no país, provocando imediatamente surtos de COVID-19 em dezenas de escolas. O WSWS escreveu naquela ocasião:

“É chocante, apesar de não surpreendente, o grau de inconsequência da política sendo implementada em Manaus, que há alguns meses horrorizava o mundo com cenas de retroescavadeiras abrindo covas para milhares de mortos pela COVID-19 após o colapso do sistema de saúde.”

Educadores responderam com greves e protestos. O governo de Lima, com auxílio dos sindicatos, foi capaz de quebrar o movimento grevista, tomando medidas repressivas como corte de salários e ameaças de substituição de professores grevistas.

Em setembro, o governo do Amazonas anunciou um aumento de casos de COVID-19 e internações em UTIs. Ao invés de fechar novamente as escolas, Lima atribuiu a culpa do surto a "gente em alguns lugares fazendo aglomerações, sobretudo em festas particulares", e restringiu apenas a operação de bares. Para manter o funcionamento das escolas, Lima advogou a ideia de que Manaus teria atingido a “imunidade de rebanho”, baseando-se em estudos não referendados pela comunidade acadêmica. A política de Lima não foi confrontada por nenhum dos jornais da classe dominante que, ao contrário, reportavam com entusiasmo os mesmos estudos.

A política criminosa de Wilson Lima não é uma exceção. Ela foi adotada pelo conjunto da classe dominante em todo o Brasil. Seus princípios foram ditados e seguem sendo levados às últimas consequências pelo presidente Jair Bolsonaro.

Somente na metade desta semana Bolsonaro editou uma medida liberando a compra das vacinas de COVID-19. Na ocasião, o ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, afirmou que a vacinação será iniciada simultaneamente em todo o país em janeiro.

Contudo, o governo cancelou a compra de 331,2 milhões de seringas necessárias para a aplicação das vacinas, limitando-se a adquirir 7,9 milhões de unidades. Bolsonaro declarou que frente a um aumento dos preços das seringas, seu governo "suspendeu a compra até que os preços voltem à normalidade”. E, apesar de Pazuello e Bolsonaro dizerem haver seringas suficientes para iniciar a vacinação, a Associação Nacional dos Prefeitos declarou que tais insumos são destinados “a atender a procedimentos diversos, entre eles o Plano Nacional de Imunizações”.

Ao mesmo tempo em que está deliberadamente desorganizando o programa de vacinação, Bolsonaro faz ataques virulentos contra a própria vacina. Ele tem insistido que as vacinas podem causar efeitos colaterais desconhecidos e que ele mesmo não a tomará. Na manhã de quinta-feira, falando a seus apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, ele afirmou: “Pelo que eu sei, menos da metade [da população] vai tomar vacina. E essa pesquisa que eu faço, faço na praia, faço na rua, faço em tudo quanto é lugar”.

Bolsonaro defende insistentemente que “não adianta se esconder do vírus, esse vírus vai ficar em nós a vida toda”. Existe uma lógica de classe por trás dessa política sociopata. Ele está sinalizando à classe dominante, através da normalização das mortes, que está disposto a implementar as medidas mais violentas e ditatoriais contra a classe trabalhadora para sustentar o alto grau de exploração e desigualdade social, que são as consequências necessárias da manutenção da ordem capitalista.

 

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